Ter um plano C é fácil. Exige pensar out of the box. Se ter não é fácil, executá-lo ainda é mais difícil...
Não é novidade a minha paixão por bicicletas. Não é novidade que tenho algumas. Não é novidade que recentemente investi numa long-tail e a razão pela qual o fiz foi aumentar mais ainda a percentagem de viagens feitas de bicicleta, sobretudo em família.
Dia 9 de Junho, foi o dia para o qual estava preparado um grande plano [C], a viagem e férias de bicicleta para toda a família. Quatro pessoas, três bicicletas, muita carga, farnel para viagem, muita boa disposição e espírito de aventura.
Eis o relato deste memorável dia:
O dia começou cedo. O Afonso, excitado com o que aí vinha, acordou antes da 8h e disse logo "Eu queria mesmo acordar cedo!".
A Joana teve uma manhã normal pois era dia de escola e tinha um teste. Só a fui buscar às 10h45, depois do teste.
O tempo esteve sempre muito tremido e com alguns aguaceiros, o que deixou algum stress, sobretudo se tivéssemos que sair sem folga para apanhar o comboio e estivesse a chover bem na altura. Não aconteceu!
A saída de casa estava programada para as 12h00. Toda a bagagem só foi finalizada e carregada naquela manhã. Umas compras de última hora (de bicicleta, claro) e 1 minuto antes da 12h00 estávamos todos montados nas bicicletas, prontos para o grande dia que se esperava, fazer Telheiras > Portimão com bicicletas, usando muito comboio.
As bicicletas fariam a ligação Casa->estação de Entre-Campos e estação de Portimão->Casa.
A grande inovação seria deixar o carro em casa para uma viagem longa e usar apenas bicicletas nos dias de férias no Algarve.
Nesta altura, tivemos a companhia e ajuda do João Oliveira, vizinho e amigo, que nos acompanhou de Telheiras até ao cais da estação de Entre-Campos, sempre documentando esta saída de Lisboa com fotos e filmes e terminando com uma preciosa ajuda a levar as bicicletas carregadas (long-tail semi-aviada e bicicleta da minha mulher com quatro alforges) até ao cais, utilizando as escadas rolantes.
Uma última foto do grupo junto das bicicletas, despedimo-nos do João e passado uns 10/15 minutos, o nosso comboio chegou.
Uma vez instalados, depois das bicicletas atracadas em zona própria (excepto a da minha mulher que foi encostada sobre um degrau), foi uma viagem super tranquila.
Comeu-se, bebeu-se, tiraram-se fotografias e os miúdos, felizes da vida, deliciaram-se com novas paisagens, vistas com outra calma e conforto a que ainda não estão habituados, pelo menos em longas distâncias.
Cerca de 1h depois, chegámos a Setúbal. Dali, iríamos seguir no Inter-Regional até Tunes, e daí num outro comboio até Portimão.
Como tínhamos tempo (uns 40 minutos), dirigi-me com os miúdos até às bilheteiras, situadas num piso inferior, para confirmar a linha, etc, deixando a minha mulher no cais com as três bicicletas.
Ao aproximar-me das bilheteiras, começo a ouvir a conversa entre o cliente e a funcionária e duas palavras saltaram do texto: "greve" e "regional". Comecei a gelar e com vontade de falar por cima da outra pessoa... Rapidamente chegou a minha vez e o inesperado confirmou-se, o comboio que íamos apanhar fora suprimido porque, "o revisor morava não-sei-onde-lá-para-o-norte e como não teria comboio para regressar a casa ao final do dia por causa da greve anunciada para o dia seguinte e por isso não ia haver comboio".
(Ainda agora, enquanto escrevo estas linhas, fico sem acção quando relembro esta justificação)
A partir daqui foi o descalabro... Até ali tinha sido tudo perfeito, perfeito demais, diria.
Aquele comboio era o 2º e último comboio do dia que podia transportar bicicletas.
Entretanto apareceu uma esperança, o Inter-Cidades ia passar dali a uns minutos e "se o revisor estivesse bem disposto" poderia deixar-nos seguir viagem com as bicicletas... era uma esperança. Entretanto a Srª espreitou e viu a nossa frota... "São essas todas? Esqueçam, nem vale a pena lá ir!!!" :/ Claro que fomos.
Toca a subir ao cais da linha 1 (felizmente o elevador era comprido e a long-tail cabia lá) para fazer o choradinho ao revisor. Depois de uma falha destas por parte da CP, restava a boa vontade de um funcionário....
Chegou o comboio, corro para o homem, que saiu de uma porta mais atrás, explico-lhe rapidamente o sucedido e peço-lhe para nos levar. Perguntou quantas bicicletas eram e deu o OK.
Corro para a minha mulher, acenando-lhe logo ao longe para pegar nas bicicletas e entrar... Nisto, como as portas que estavam perto das bicicletas não eram das normais, acabamos por nos aproximar do revisor e ele apercebe-se que uma da bicicletas era a long-tail.... e "epá, essa grande não dá!!" Pediu desculpas apressadamente, fez sinal ao maquinista e nós, depois de uns segundos de esperança, vimos o comboio partir... sem nós.
Ironicamente, a mesma bicicleta que nos abriu os horizontes e nos levou até ali, foi a razão por termos ali ficado, a meio da viagem, sem alternativas para continuar...
Claro que a "bicicleta grande" foi a desculpa que ele precisava para nos dar um não. Foi um alívio para ele não ter que "pisar o risco" e permitir bicicletas a bordo, mesmo depois de a CP nos ter abandonado no meio, sem aviso prévio, sem qualquer preocupação pelos seus clientes.
Finalmente derrotados, fomos até ao exterior da estação, comer qualquer coisa, já que os miúdos suplicavam por comida e também por explicações, pois perceberam que algo não estava a correr bem...
Milhares de opções passaram-nos pela cabeça... continuar de bicla via Tróia? Mas o tempo, os miúdos e a Joana a pedalar não permitiam grandes aventuras.
Com muita dificuldade e angústia decidimos voltar para trás... Dali a minutos havia um comboio para Lisboa e devido a isso, saímos rapidamente do jardim onde os miúdos almoçavam o frango/farnel e voltámos a estação da desgraça.
Com os miúdos confusos e nós ainda sem ter caído na real, fizemos a viagem de regresso, já sem a alegria da manhã, pelos menos os adultos. Só a sair da estação em Entre-Campos é que o Afonso realmente se apercebeu que estava a voltar para casa. Nem na passagem por cima do Tejo, quando dissemos que era novamente Lisboa, quis acreditar dizendo "Lisboa? não, vamos para o Algarve!".
Eram 16h e estávamos novamente em Lisboa. Pedalar até casa foi feito em modo silencioso.

No Campo Grande, o Afonso começou a cabecear e a adormecer... tive que lutar para ele manter os olhos aberto e o corpo hirto. Chegámos a casa, mas não foi a chegada esperada. Em vez de triunfantes, chegámos derrotados. Derrotados pelo absurdo.
O excelente plano C falhou. Restava-nos pensar no plano B.
A opção carro parecia-nos "nojenta", nesta altura, depois de todo este plano. Como só haveria comboio no Sábado (devido à greve anunciada para Sexta), ir nesse dia também parecia inapropriado, já que voltaríamos na Terça seguinte.
Ao entrar em casa, a escolha foi óbvia. Voltar a casa, abri-la, desarrumá-la, para voltar a sair em breve, não seria opção. O carro teria que ser usado, por muito que nos custasse.
Parecia um plano A... mas foi salvo. A minha mulher disse logo "levamos [em cima do carro] duas bicicletas e temos lá outra."
E assim foi. Consegui-se fugir do plano A e delinear um plano B.
[o carro substituiu o comboio]
[Bagagem da bicicletas, transferida. Nunca a bagageira andou tão vazia]
Claro que o plano B, usando o carro, também tinha os seus imprevistos...
[2ª circular completamente entupida]
Nove horas depois da primeira saída de casa, chegámos a Portimão, duas horas depois da chegada prevista na viagem original.
Para cúmulo, pouco depois de iniciarmos a viagem de carro, soubemos pelo rádio que a greve tinha sido desconvocada.
Azar dos azares, fomos afectados por uma greve que nunca chegou a acontecer... Troika, dêm uma olhada pela REFER e CP, paalease!
Pessoalmente cheguei com uma sensação mista, derrota-vitória. Derrotado por mais uma vez ter trazido o carro. Vitorioso por sentir que não são obstáculos destes que me/nos vão impedir de continuar a trilhar o plano C.
Hoje, na continuação do plano B, promoveu-se a bicicleta de senhora a cargo-bike-not-so-long-tail-with-a-seat.
[Alforge duplo DIY com tela reciclada (de publicidade de rua) e almofada para pendurinha]
Ao seguirmos para a praia juntamente com o meu sogro, confirmou-se... este plano B está a saber muito, muito bem.
Moral da história, o plano C está forte, será continuado, revisto e aumentado.
Esta foi mais uma aventura que não será esquecida e ficará sempre como a 1ª viagem de cicloturismo da família, mesmo não tendo sido bem assim.
Já me estou a imaginar daqui a uns anos, far, far away, à frente de uma fogueira com a família, bicicletas ali ao lado, começando uma conversa "Lembram-se na nossa 1ª viagem de bicicleta??"







14 comentários:
Muito fixe César! Bons dias no Algarve :)
Que bonitos alforges! Vai haver muitas oportunidades de repetires a viagem. O importante é nunca desistires. Bom resto de ferias para todos.
Os imprevistos da viagem toldaram um pouco a capacidade de avaliação ao que está em jogo.
Começando pelo fim, não será seguramente o FMI que virá melhorar os serviços da CP (material circulante) ou da REFER (infra-estrutura) e basta ver o que aconteceu nos países onde os serviços ferroviários foram vendidos a privados como no Reino Unido.
Os trabalhadores da CP não podem, como é evidente ficar apeados num qualquer ponto do país depois de cumprirem o seu trabalho, daí a explicação dada pela funcionária. Creio ser o César capaz de compreender isso...
Optar pela bicicleta é uma escolha baseada em princípios de sustentabilidade e racionalidade. Mas é também estar preparado para uma realidade que não está de todo adaptada a essa opção.
Acredito que este texto foi escrito a quente e não reflecte a clarividência normalmente mostrada pelo autor.
Só uma dúvida, a Longtail foi de carro?
Humberto,
Não foi a quente que escrevi este post.
"Apeados"? O comboio é o único transporte?
A greve foi anunciada para dia 10. Suprimir um comboio no dia 9 porque um revisor não tinha o comboio para voltar gratuitamente para a sua casa é no mínimo "cagar" no serviço que prestam, que por acaso até é público.
O insólito é que a greve nem chegou a acontecer.
A long-tail ficou. A not-so-long-tail, i.e a bicicleta da minha mulher é que passou a transportar a carga e o Afonso.
Parabéns César, pela persistência!... as minhas férias serão mais parecidas com o teu plano B.
O César faz um juízo de intenções quando diz que o revisor usou a longtail para vos impedir de entrar no comboio mas afinal não é só no comboio que ela não entra...
Se o César ficasse apeado a centenas de quilómetros de sua casa, num dia de trabalho, sem forma garantida de voltar, gostaria que lhe dissessem que estava a ser egoísta.
A defesa dos serviços públicos passa primeiramente pela defesa dos direitos de quem os fornece. Mas pode ser que eu esteja errado e se deva acabar com tudo e deixar a lógica do lucro mandar na nossa vida.
Talvez depois fiquemos todos mais dependentes do carro mas sem revisores mal dispostos...
Deixe-me só acrescentar que prezo a sua persistência e o exemplo que dá pelas opções de mobilidade, apenas creio que neste caso, infelizmente, está errado.
Parabéns pelo Plano C e pelo Plano B. Para cada situação, há que escolher a alternativa mais indicada, ou a possível, dadas as circunstâncias. Foi mais uma aventura. :-) A melhoria do serviço dos comboios é, para mim, uma das principais batalhas a empreender pelos ciclistas, urbanos e suburbanos, para os movimentos pendulares e para as viagens de médio e longo curso, utilitárias ou de lazer, como esta que relataste. Comboio + bicicleta é uma equipa naturalmente vencedora, num país onde quem manda se preocupa em servir bem - que não é o caso da CP. Se o revisor não tinha comboio para regressar a casa por causa da greve no dia seguinte, a CP só tinha que lhe garantir o regresso de autocarro ou automóvel, ou então fazer seguir o comboio sem revisor - dos males o menor. Agora, suprimir uma ligação, prejudicando quem confiou no serviço deles, por um motivo tão frívolo, é inaceitável.
Ceéar, apenas tenho que dizer que a persistência dá frutos!
E Obrigado por ir documentando!
Quanto às questões da CP, em relação ao "segundo revisor", o do Inter cidades, na minha opinião, mostrou abertura, mas...por vezes o que é demais é demais, e isto de ir contra as normas da companhia...isto visto de longe.
No "caso da greve que não foi greve e por isso o revisor não veio" concordo com o Humberto, o pobre homem não tem que ficar pendurado, MAS os utentes também não, aliás, não sei se a CP tem, mas regra geral há uma pessoa que trata das escalas e as mesmas podem E DEVEM ser alteradas quando situações destas são expectáveis, mas isto deve ser demais para a CP, mas fica a ideia, de graça, afinal todos podemos e devemos fazer trabalho publico...
Mas nem tudo está mal com os combóios - é preciso adaptarmo-nos, até porque na cabina de um inter-cidades ou de um alfa é impossível levar uma bicicleta normal sem desrespeitar o espaço dos outros passageiros - a pensar nisso fiz também o meu fds prolongado na zona de Aveiro levando duas dobráveis com bagagem e com uma cobertura para as tapar no combóio, dobradas na zona da bagagem.
A forma mais prática de conjugar o combóio com a bicicleta é recorrendo a dobráveis que já existem a partir de preços semelhantes aos das normais da mesma gama.
Quanto à bagagem que se leva é uma questão de não ser muito ambicioso com o guarda-roupa...
Mas acho que deve e pode ser feita pressão para, pagando um complemento, haver uma secção de uma carruagem destinada apenas a bicicletas de tamanho normal.
Amigos,
A minha indignação nada tem a ver com o facto do IC não nos ter aceite. Percebo que uma long-tail (ainda lhe disse que a punha ao alto) não caiba sem causar transtorno aos passageiros.
A minha indignação tem a ver com o facto de não se fazer o comboio porque alguém tinha que faltar naquela tarde. Percebo também que o senhor falte (embora não muito, confesso pois outros trabalhadores da CP também foram para sul até mais tarde), mas não percebo que não haja uma substituição como há quando alguém falta por outro qualquer motivo, tipo doença ou férias.
Nuno,
Dois adultos e duas crianças e respectiva carga para seis dias não se leva em 3 dobráveis, sobretudo quando um dos ciclistas tem 8 anos e não leva carga e outro é passageiro (tem 4 anos)...
César, tens razão mas olha que nem nos países mais evoluídos em termos de combóios vi condições ideais para levar uma bicicleta comprida como a tua nova bicla - mesmo na Dinamarca, na Bélgica ou Holanda apesar de teres espaço para a bicla em carruagens próprias, terás imensas dificuldades em entrar na carruagem e fazer as esquinas das portas com ela....
As biclas compridas têm vantagens mas têm algumas desvantagens também como a dificuldade de as colocar em espaços pequenos - até no compartimento de carga de um regional vais ter dificuldades (costumo andar no da linha do Oeste e usava o da linha da Lousã e com bicicletas de roda 26 colocá-las na zona de carga é obra).
Para o problema da bagagem acabo por usar um prático reboque carry freedom, mas realmente não resolve o transporte das crianças...
A Mubi tem que se dedicar mais a intervir junto da CP!
Sim, reconheço, obviamente que não é bicicleta para muitas viagens de comboio. Tanto quanto sei, o inter regional para o Algarve circula sempre quase vazio, por isso me meti nesta aventura. No comboio para Setúbal da Fertagus, até havia um espaço bem bom para duas biclas, como se pode ver numa das fotos.
O objectivo é fazer cada vez menos comboio e pedalar cada vez mais, embora vá precisar de comboio ainda muito tempo.
A MUBi tem que lutar sim. Como utilizador experiente como és, desafio-te a encabeçares um projecto nessa área e disponibilizo-me para colaborar!
Enviar um comentário