10 junho 2011

Cicloturismo familiar - do Plano C ao plano B

Ter um plano C é fácil. Exige pensar out of the box. Se ter não é fácil, executá-lo ainda é mais difícil...

Não é novidade a minha paixão por bicicletas. Não é novidade que tenho algumas. Não é novidade que recentemente investi numa long-tail e a razão pela qual o fiz foi aumentar mais ainda a percentagem de viagens feitas de bicicleta, sobretudo em família.

Dia 9 de Junho, foi o dia para o qual estava preparado um grande plano [C], a viagem e férias de bicicleta para toda a família. Quatro pessoas, três bicicletas, muita carga, farnel para viagem, muita boa disposição e espírito de aventura.

Eis o relato deste memorável dia:
O dia começou cedo. O Afonso, excitado com o que aí vinha, acordou antes da 8h e disse logo "Eu queria mesmo acordar cedo!".
A Joana teve uma manhã normal pois era dia de escola e tinha um teste. Só a fui buscar às 10h45, depois do teste.
O tempo esteve sempre muito tremido e com alguns aguaceiros, o que deixou algum stress, sobretudo se tivéssemos que sair sem folga para apanhar o comboio e estivesse a chover bem na altura. Não aconteceu!

A saída de casa estava programada para as 12h00. Toda a bagagem só foi finalizada e carregada naquela manhã. Umas compras de última hora (de bicicleta, claro) e 1 minuto antes da 12h00 estávamos todos montados nas bicicletas, prontos para o grande dia que se esperava, fazer Telheiras > Portimão com bicicletas, usando muito comboio.
As bicicletas fariam a ligação Casa->estação de Entre-Campos e estação de Portimão->Casa.
A grande inovação seria deixar o carro em casa para uma viagem longa e usar apenas bicicletas nos dias de férias no Algarve.

Nesta altura, tivemos a companhia e ajuda do João Oliveira, vizinho e amigo, que nos acompanhou de Telheiras até ao cais da estação de Entre-Campos, sempre documentando esta saída de Lisboa com fotos e filmes e terminando com uma preciosa ajuda a levar as bicicletas carregadas (long-tail semi-aviada e bicicleta da minha mulher com quatro alforges) até ao cais, utilizando as escadas rolantes.
Uma última foto do grupo junto das bicicletas, despedimo-nos do João e passado uns 10/15 minutos, o nosso comboio chegou.

Uma vez instalados, depois das bicicletas atracadas em zona própria (excepto a da minha mulher que foi encostada sobre um degrau), foi uma viagem super tranquila.


Comeu-se, bebeu-se, tiraram-se fotografias e os miúdos, felizes da vida, deliciaram-se com novas paisagens, vistas com outra calma e conforto a que ainda não estão habituados, pelo menos em longas distâncias.


Cerca de 1h depois, chegámos a Setúbal. Dali, iríamos seguir no Inter-Regional até Tunes, e daí num outro comboio até Portimão.
Como tínhamos tempo (uns 40 minutos), dirigi-me com os miúdos até às bilheteiras, situadas num piso inferior, para confirmar a linha, etc, deixando a minha mulher no cais com as três bicicletas.

Ao aproximar-me das bilheteiras, começo a ouvir a conversa entre o cliente e a funcionária e duas palavras saltaram do texto: "greve" e "regional". Comecei a gelar e com vontade de falar por cima da outra pessoa... Rapidamente chegou a minha vez e o inesperado confirmou-se, o comboio que íamos apanhar fora suprimido porque, "o revisor morava não-sei-onde-lá-para-o-norte e como não teria comboio para regressar a casa ao final do dia por causa da greve anunciada para o dia seguinte e por isso não ia haver comboio".
(Ainda agora, enquanto escrevo estas linhas, fico sem acção quando relembro esta justificação)

A partir daqui foi o descalabro... Até ali tinha sido tudo perfeito, perfeito demais, diria.
Aquele comboio era o 2º e último comboio do dia que podia transportar bicicletas.

Entretanto apareceu uma esperança, o Inter-Cidades ia passar dali a uns minutos e "se o revisor estivesse bem disposto" poderia deixar-nos seguir viagem com as bicicletas... era uma esperança. Entretanto a Srª espreitou e viu a nossa frota... "São essas todas? Esqueçam, nem vale a pena lá ir!!!" :/ Claro que fomos.
Toca a subir ao cais da linha 1 (felizmente o elevador era comprido e a long-tail cabia lá) para fazer o choradinho ao revisor. Depois de uma falha destas por parte da CP, restava a boa vontade de um funcionário....

Chegou o comboio, corro para o homem, que saiu de uma porta mais atrás, explico-lhe rapidamente o sucedido e peço-lhe para nos levar. Perguntou quantas bicicletas eram e deu o OK.
Corro para a minha mulher, acenando-lhe logo ao longe para pegar nas bicicletas e entrar... Nisto, como as portas que estavam perto das bicicletas não eram das normais, acabamos por nos aproximar do revisor e ele apercebe-se que uma da bicicletas era a long-tail.... e "epá, essa grande não dá!!" Pediu desculpas apressadamente, fez sinal ao maquinista e nós, depois de uns segundos de esperança, vimos o comboio partir... sem nós.

Ironicamente, a mesma bicicleta que nos abriu os horizontes e nos levou até ali, foi a razão por termos ali ficado, a meio da viagem, sem alternativas para continuar...
Claro que a "bicicleta grande" foi a desculpa que ele precisava para nos dar um não. Foi um alívio para ele não ter que "pisar o risco" e permitir bicicletas a bordo, mesmo depois de a CP nos ter abandonado no meio, sem aviso prévio, sem qualquer preocupação pelos seus clientes.

Finalmente derrotados, fomos até ao exterior da estação, comer qualquer coisa, já que os miúdos suplicavam por comida e também por explicações, pois perceberam que algo não estava a correr bem...
Milhares de opções passaram-nos pela cabeça... continuar de bicla via Tróia? Mas o tempo, os miúdos e a Joana a pedalar não permitiam grandes aventuras.
Com muita dificuldade e angústia decidimos voltar para trás... Dali a minutos havia um comboio para Lisboa e devido a isso, saímos rapidamente do jardim onde os miúdos almoçavam o frango/farnel e voltámos a estação da desgraça.

Com os miúdos confusos e nós ainda sem ter caído na real, fizemos a viagem de regresso, já sem a alegria da manhã, pelos menos os adultos. Só a sair da estação em Entre-Campos é que o Afonso realmente se apercebeu que estava a voltar para casa. Nem na passagem por cima do Tejo, quando dissemos que era novamente Lisboa, quis acreditar dizendo "Lisboa? não, vamos para o Algarve!".
Eram 16h e estávamos novamente em Lisboa. Pedalar até casa foi feito em modo silencioso.



No Campo Grande, o Afonso começou a cabecear e a adormecer... tive que lutar para ele manter os olhos aberto e o corpo hirto. Chegámos a casa, mas não foi a chegada esperada. Em vez de triunfantes, chegámos derrotados. Derrotados pelo absurdo.

O excelente plano C falhou. Restava-nos pensar no plano B.

A opção carro parecia-nos "nojenta", nesta altura, depois de todo este plano. Como só haveria comboio no Sábado (devido à greve anunciada para Sexta), ir nesse dia também parecia inapropriado, já que voltaríamos na Terça seguinte.

Ao entrar em casa, a escolha foi óbvia. Voltar a casa, abri-la, desarrumá-la, para voltar a sair em breve, não seria opção. O carro teria que ser usado, por muito que nos custasse.
Parecia um plano A... mas foi salvo. A minha mulher disse logo "levamos [em cima do carro] duas bicicletas e temos lá outra."

E assim foi. Consegui-se fugir do plano A e delinear um plano B.

[o carro substituiu o comboio]

[Bagagem da bicicletas, transferida. Nunca a bagageira andou tão vazia]

Claro que o plano B, usando o carro, também tinha os seus imprevistos...

[2ª circular completamente entupida]

Nove horas depois da primeira saída de casa, chegámos a Portimão, duas horas depois da chegada prevista na viagem original.

Para cúmulo, pouco depois de iniciarmos a viagem de carro, soubemos pelo rádio que a greve tinha sido desconvocada.
Azar dos azares, fomos afectados por uma greve que nunca chegou a acontecer... Troika, dêm uma olhada pela REFER e CP, paalease!

Pessoalmente cheguei com uma sensação mista, derrota-vitória. Derrotado por mais uma vez ter trazido o carro. Vitorioso por sentir que não são obstáculos destes que me/nos vão impedir de continuar a trilhar o plano C.

Hoje, na continuação do plano B, promoveu-se a bicicleta de senhora a cargo-bike-not-so-long-tail-with-a-seat.

[Alforge duplo DIY com tela reciclada (de publicidade de rua) e almofada para pendurinha]

Ao seguirmos para a praia juntamente com o meu sogro, confirmou-se... este plano B está a saber muito, muito bem.


Moral da história, o plano C está forte, será continuado, revisto e aumentado.

Esta foi mais uma aventura que não será esquecida e ficará sempre como a 1ª viagem de cicloturismo da família, mesmo não tendo sido bem assim.

Já me estou a imaginar daqui a uns anos, far, far away, à frente de uma fogueira com a família, bicicletas ali ao lado, começando uma conversa "Lembram-se na nossa 1ª viagem de bicicleta??"

06 junho 2011

Ostentar

É chegar de bicicleta ao trabalho, num parque tecnológico no meio do nada, onde praticamente toda a gente chega de carro porque não há alternativas.

É entrar na garagem do edifício, cheia de carros-status, passar airosamente ao lado da cancela, estacionar e partilhar um elevador com colegas que perguntam admirados "Vem de bicicleta para o trabalho??".

Nunca gostei de ostentar, mas com a bicicleta, quando acontece, dá-me um certo prazer! :)

01 junho 2011

Uma aventura para lado nenhum

Andar de bicicleta como meio de transporte altera a vida de quem opta por o fazer.
Uma das alterações é a adição de uma dose aventura na vida do dia-a-dia, o ram-ram. Pode ser visto com um ponto negativo, sobretudo pelos detractores, e há muitos por aí, como já referi antes.
Aventura é uma componente que desaparece na vida ao longo dos anos, sobretudo quando se vivem vidas muito mais controladinhas, standerizadas e formatadas.
Para quem anda de carro, o maior imprevisto nos dias que correm é a quantidade de trânsito que se apanha, aliás, justificação sempre bem aceite por quem espera muito por alguém – Aposto que é das desculpas falsas mais usadas, tal a boa aceitação que tem.
De bicicleta, o maior imprevisto, dos poucos aliás, é sem dúvida alguma a meteorologia, sobretudo em dias de tempo incerto.
É claro que não é tanto quanto os automobilistas pensam, pois estes nem se apercebem que é raro o dia em que chove muito tempo seguido – fechado num automóvel não se tem uma percepção acertada das condições atmosféricas (nem de uma carrada de outras coisas…).
No sábado passado, dia incerto, o plano familiar era passar de bicicleta pelo Campo Pequeno a meio da tarde. Estava a decorrer o 1º Encontro Cycle Chic de Lisboa e a Cenas a Pedal tinha lá uma tenda/loja. Como tinha encomendado um “assento” para os passageiros da Xtracycle, assim passava por lá e aproveitava para ver como estava a decorrer o encontro chic.
[Quando a carga é irrequieta, demora-se mais a acondicioná-la]
À medida que nos íamos preparando e atrasando, o céu foi escurecendo, até que passados poucos minutos de termos começado a pedalar, começou, naturalmente a chover. Eu na X com os miúdos e minha mulher na dela (por prevenção à chuva a Joana não levou a dela para simplificar em caso de molha).
Quanto mais andamos de bicicleta, mais nos relaxamos com a cor do céu – não há utilizador de bicicleta que não faça isto. Há três razões principais: 1) Uma melhor percepção do tempo devido à maior exposição a este; 2) Gostar imenso de usar a bicicleta como meio de transporte; 3) Mais abertura para a “aventura”.
Seguíamos, todos frescos, já com as pingas a engrossar, e aceleramos o andamento até pararmos debaixo da Padre Cruz, num grande viaduto que serve peões e a ciclovia Telheiras-Entrecampos.
Enquanto aguardávamos por uma aberta, desfrutámos daquele abrigo. Desfrutar é gozar o momento, nem que seja rir da situação em que nos metemos e imaginar como vamos sair dela.
O Afonso corria feito louco de um lado para o outro.
A Joana, menina, imaginava como sairíamos dali, enquanto a chuva se adensava e os trovões começavam…

Enquanto os minutos passavam, as esperanças que mudasse o tempo foram ficando menores, e fotografias se tiravam… :p
Como tínhamos um casal amigo ali perto – com quem tínhamos combinado este passeio, mas aguardava uma aberta para sair de casa – em troca de mensagens, ofereceram um resgate dos miúdos dali para fora de carro.
Toca de vestir os impermeáveis...
... e enquanto o carro chegava e não chegava, preparei-me para levar os miúdos até à estrada…


Claro que eles, instintivamente, meteram-se debaixo do meu poncho. Foi uma risada completa aqui e, ficou a ideia para outra altura… :)
Resgate dos miúdos feitos, e nós decidimos seguir para casa, mas… distraídos com o resgate nem analisámos bem as condições do momento e foi precisamente quando caiu a maior carga de água. Andei 100mts, a subir, e dei meia-volta e voltei à “toca”… Esperámos mais um pouco e lá seguimos, hilariantes… no meio do barulho da chuva conseguia ouvir as gargalhadas da minha mulher :).
O meu poncho (na Xtacycle leva-se sempre muita coisa e este já lá estava!!!) tapava-me quase todo, o problema era por baixo pois ainda não tenho pára-lamas, apesar de já estarem encomendados… :(
Passado minutos estávamos em casa, encharcados da cintura para baixo, mas muito bem dispostos. Os miúdos aguardavam dentro do carro, estacionado à nossa porta.
Assim se passou uma parte de Sábado. Se podia ter sido evitado? Podia, mas não teria sido a mesma aventura. De certeza que desta ninguém se vai esquecer e a vida é também é feita de coisas como estas.
Depois de um lanchinho, acabámos por passar de carro pelo Campo Pequeno para fazer o que estava previsto.
Curiosidade: o pessoal da Cenas a Pedal também estava encharcado e nem impermeáveis levaram… “Olhámos para o céu, mas estava calor, por isso pensámos, que se lixe, vai ser uma cena tropical…” – Eu não disse que os ciclistas relaxavam em relação às condições meteorológicas…. Eu disse!
-----------------------------------------------------
Já esta semana, o Tagus Park ganhou mais uma ciclista, com grande contribuição do serviço gratuito da MUBi, o Bike Buddy. O Rui Costa foi o voluntário de serviço e sem nunca lá ter ido antes, cumpriu a sua tarefa com distinção. O Trajecto foi Amadora->TagusPark com comboio à mistura. Quem ainda pensa que não é possível, pense novamente, pois as desculpas começam a ser poucas.