20 julho 2014

Combater o envelhecimento

Apesar da PDI não me andar a facilitar a vida, desde há uns anos, tenho sempre tentado combater os problemas físicos, arranjando hobbies/ desportos alternativos que ainda sejam viáveis. Tem sido uma luta e não tenho estou propriamente a ganhar, pois o problema nas costas - hérnias discais - minam quase tudo, desde a corrida, futebol e mesmo o skate.
Skate?
Sim, eu explico. A viver há mais de um ano em Bruxelas, com bastante mais tempo para mim, tenho-me desforrado no que diz respeito à bicicleta, que é o meu único veículo e na qual já fiz milhares de kms, a maioria em cicloturismo, mas muito na cidade, no dia a dia, também. Curiosamente, do que tenho sentido muita falta é do mar, por causa do surf. Eu não surfava em Portugal, a não ser em raras ocasiões no Algarve e no Inverno, mas estar aqui cheio de tempo, só me faz lembrar o surf que eu poderia esta a fazer :P
E o skate?
Skate foi a forma que eu encontrei de surfar na cidade.
Ontem dei mais uma voltinha e fiz um video. Tem musiquinha e tudo!




30 janeiro 2014

A invenção de "jaywalking"


Sarah Goodyear
24 de Abril, 2012.

Aconteceu de novo na última noite.

Desta vez, o condutor de um Jaguar circulando pela Rua 42 em Manhattan atingiu outro carro e perdeu o controlo capotando para o passeio e atingindo vários peões. Por incrível que pareça uma vez que esta é uma das zonas mais movimentadas da cidade, ninguém morreu. Menos surpreendente, dada a abordagem geral do Departamento de Polícia de Nova Iorque em relação a acidentes carro-peões ou carro-bicicleta, o automobilista não vai aparentemente enfrentar quaisquer acusações criminais.

Apesar dos recentes e notáveis ganhos ​​em segurança dos peões - graças em parte às mudanças dos traçados destinadas a desacelerar a condução – os carros ainda saltam os passeios quase todos os dias. Automobilistas que matam ou mutilam peões com os seus veículos ainda são raramente tratados como criminosos em Nova Iorque, desde que não estejam embriagados e não fujam do local. Mesmo isso às vezes não é suficiente para merecerem acusações sérias.

Há vinte anos, um condutor fora de controlo rasgou o Washington Square Park em Nova Iorque, matando cinco pessoas e ferindo outras 27. O horrível acidente causou um clamor público e galvanizou os defensores daquilo que se tornou conhecido como o movimento “ruas para viver” ​​. Mas a automobilista, uma mulher de 74 anos de idade, não foi acusada de qualquer crime.

Nem sempre foi assim. Basta folhear as notícias do New York Times sobre peões que morreram depois de atingidos por automóveis antes de 1930 e verificar que em quase todos os casos o automobilista foi acusado de algo como "homicídio técnico involuntário”. E não apenas em Nova Iorque. Em todo o país, os automobilistas eram responsabilizados criminalmente quando matavam ou feriam pessoas com seus veículos.

Então o que aconteceu? E quando?

De acordo com Peter Norton, professor assistente na Universidade de Virgínia e autor de “Fighting Traffic: The Dawn of the Motor Age in the American City” (algo como “Lutando contra o tráfego: O nascimento da idade do motor na cidade americana”), a mudança não foi acidental (por assim dizer). Peter Norton fez uma extensa pesquisa sobre a forma como a nossa visão das ruas foi sistemática e deliberadamente mudada pela indústria automóvel, como o foi a própria lei.

"Se se perguntar hoje às pessoas para que é que serve uma rua vão responder, carros", diz Norton. "O que é praticamente o oposto do que teriam dito há 100 anos."

As ruas nessa altura eram lugares vibrantes, com uma multidão de utilizadores e utilizações. Quando o automóvel apareceu pela primeira vez, diz Norton, foi visto como um intruso e uma ameaça. Cartoons editoriais representavam regularmente “ a Morte” atrás do volante. Essa imagem persistiu até a década de 1920.

Hoje, os defensores das ruas habitáveis​​, como o “Transportation Alternatives” de Nova Iorque gastam muito tempo e energia a tentar que as pessoas levem a sério as mortes de peões. Mas no início do século XX, as mortes no trânsito - particularmente as mortes de crianças - atraíam enorme atenção.

"Se uma criança é atropelada e morta por um automóvel em 2012, é tratada como uma perda privada, a ser chorada em privado pela família", afirma Norton. "Antes, estas coisas eram tratadas como perdas públicas - muito parecidas com a morte de soldados."Presidentes de Câmaras dedicavam monumentos às vítimas de crimes de trânsito, acompanhados por bandas e crianças vestidas de branco, carregando flores.

"Estamos a falar menos de leis do que de normas", afirma Norton. Cita um editorial de 1923 do St. Louis Post-Dispatch - uma instituição solidamente convencional, como ele faz notar. O jornal defendeu que, mesmo no caso de uma criança se ter lançado para a estrada, um automobilista que declinava responsabilidade estava cometendo "o perjúrio do assassino."

Norton explica que nos primeiros anos do automóvel, aplicavam-se às colisões os princípios do direito comum. No caso de uma colisão, o veículo maior, mais pesado, era considerado culpado. A responsabilidade por acidentes estava sempre no automobilista.

A opinião pública estava também do lado do peão. "Havia muita raiva nos primeiros anos", diz Norton. "Muito ressentimento contra os carros por pôr as ruas em perigo." Automóvel-clubes e fabricantes perceberam que tinham um grande problema de imagem, afirma Norton, e começaram a mexer-se agressivamente para mudar a maneira como os americanos pensavam sobre carros, ruas e tráfego. "Disseram: 'Se queremos ter um futuro para os carros na cidade, temos que mudar isso. Os carros estão a ser retratados como máquinas assassinas de Satanás."

A AAA (American Automobile Association ) e outros clubes automóveis viraram-se primeiro para a geração mais jovem, financiando programas educativos de segurança nas escolas públicas que foram projetados para ensinar às crianças que as ruas são para os carros, não para as crianças. Financiaram patrulhas de segurança que ensinavam às crianças que tinham que parar para deixar passar o tráfego, e não ao contrário.

Um ponto de viragem fundamental, de acordo com Norton, veio em 1923, em Cincinnati. A ira dos cidadãos por causa das mortes de peões deu origem a um movimento referendário. O movimento reuniu cerca de 7.000 assinaturas de apoio a uma lei que teria exigido que todos os veículos na cidade fossem equipados com reguladores de velocidade limitando-os a 40 quilômetros por hora.

Os automóvel-clubes e comerciantes locais reconheceram que os carros seriam muito mais difíceis de vender, se houvesse um limite para a velocidade. Então empenharam-se na sua campanha contra a iniciativa. Enviaram cartas a cada indivíduo com carro na cidade, dizendo que a lei condenaria os EUA ao destino da China, que pintaram como a nação mais atrasada do mundo. Chegaram a contratar mulheres bonitas para convidar os homens a dirigir-se às urnas e votar contra a lei. E a medida falhou.

Também conseguiram envolver Detroit. Os construtores de automóveis uniram-se para ajudar a combater a lei de Cincinnati, de acordo com Norton. "E permaneceram organizados depois disso", diz ele.

A indústria fez lobby para mudar a lei, promovendo a adoção de códigos da estrada para suplantar a lei geral. Os códigos foram projetados para restringir a utilização da rua pelos peões e dar prioridade aos carros. A ideia de "jaywalking" (andar descuidadamente na rua) - um conceito que na realidade nunca tinha existido antes de 1920 - foi consagrada na lei.

A configuração atual da rua americana e as regras que a regem não são o resultado de nenhum processo orgânico inevitável. "Foi mais como uma briga", diz Norton. "Onde o brigão mais forte vence."

Imagem no topo: Esta ilustração de 1910, publicada originalmente por Keppler & Schwarzmann em 1909, mostra um motorista acelerando pela estrada a fora, rodeado de recortes de jornais com títulos sobre o elevado número de acidentes de tráfego envolvendo peões atropelados por automóveis, incluindo o título sobre o motorista que foi acusado de homícidio em 1º grau de uma rapaz de 13 anos (Courtesia da Library of Congress)

Este texto é a tradução do artigo The Invention of Jaywalking, feita por Rui Martins, a quem agradeço pessoalmente, pois tudo o que ajudar a perceber como chegámos à situação actual pode abrir cabeças aos peões adormecidos que acham que é tudo normal e sempre foi assim.
Vamos lá recuperar as cidades para as pessoas!

05 janeiro 2014

Bom 2014!

Ter uma vida activa é super importante e influenciará toda a nossa existência. Com ou sem bicicleta, tenham uma vida activa!

Bom 2014 e bom resto de vida, com actividade física o resto virá naturalmente.



PS: Espreitem os outros videos do Salgueiro. Valem a pena!

22 dezembro 2013

De volta à "estrada"

Depois de algum tempo sem me aventurar por "estradas" belgas (nem sempre asfaltadas), por diversos motivos, voltei a ter condições e vontade de o fazer, recentemente.
Ontem, nem o frio - que já esteve pior, hoje está semelhante ao de Portugal - me impediu de voltar a dar uma voltinha. "Voltinha", porque quase não passou dos 50km.

Sem grandes planos, acordei com vontade de aproveitar o último fim de semana do ano em Bruxelas. Já com alguma experiência, rapidamente me preparei para sair e, enquanto o fazia, escolhi o destino. Não podia ser longe, já que o tempo estava demasiado incerto e não queria pensar muito na rota a seguir.
Desta vez queria rolar com mais intensidade e não apenas passear.

Waterloo, mais concretamente, o campo de batalha de Waterloo, pareceu-me um destino óbvio, pois apesar de já lá ter passado nesta vila, não cheguei a ver o monte do Leão, monumento que marca este grande acontecimento, a derradeira derrota de Napoleão e das suas invasões europeias, em 1815.

Rapidamente estava pronto e fiz-me à estrada. Assim que entrei numa avenida larga apercebi-me do vento brutal que soprava, no caso, mesmo de frente. "Vão ser uns longos 25km..", pensei. Logo de seguida pensei também que como grande parte do trajecto ia ser feito no meio do bosque, esse problema não se ia sentir daquela forma intensa. Acertei.

Passado 2 ou 3km entrei no parque Bois de la Cambre, um mega parque que liga com uma muito-mais-mega floresta, a Forêt de Soignes. Trata-se de uma mancha verde que equivale a 1/4 da área de Bruxelas. Muito bom mesmo.

Parque à vista!

Dali até à entrada da vila de Waterloo, foi sempre a curtir, inicialmente pelo parque, depois pelo meio do bosque, tudo isto num ambiente outonal que, por um lado nos transmite uma quase-falta-de-vida, mas por outro lado uma tão pujante-vida-latente. Ok, não sei explicar, mas gosto da sensação de atravessar estas florestas. Gosto das cores, gosto do silêncio, gosto de tudo.




Por tanto querer seguir nesta floresta, nos últimos dois kms acabei por me desviar um pouco do caminho mais directo e tive que inventar um pouco, atravessando um campo agrícola por um caminho muito estreito e marado (BTT puro, vá) onde a subir a tracção me faltou. Terá sido por ter pneus de estrada totalmente envolvidos de lama? :)

Antes de entrar no single-track lamacento, uma foto tirada por uma agricultora. Pas mal!
(as restantes ficaram com o seu dedo a tapar-me as rodas!)

Depois do single-track (lá atrás à esquerda), ainda no meio do campo.

Em Waterloo, o comércio local estava ao rubro, assim com o trânsito e fui o mais rápido a atravessar o centro da cidade, pelo meio dos carros que eram mais que muitos. Já avistando o destino, bastou fazer dois ou três kms feitos numa não-muito-agradável-devia-ter-ido-por-outro-lado espécie de via-rápida de duas faixas, e estava lá.

Umas fotos ao monumento de vários ângulos, uma rápida visita ao interior da loja de souvenirs e fiz-me ao caminho de regresso. O tempo desagradável - vento e frio - não estava convidativo para uma subida ao topo da coisa, ainda por cima estando eu um bocado transpirado - era constipação certa.

Uma foto panorâmica do monte do leão.

No regresso, optei pela por outra estrada, também ela cheia de carros, mas com menos velocidade. Já no centro da cidade, fiz uma paragem técnica no Quick (tipo McDonalds e com muito mais lojas do que a cadeia americana, por cá). Secagem rápida de três camadas de roupa nos secadores xpto, dois hamburgers e umas publicações na Internet :) e estava pronto para seguir viagem.



Centro ainda cheio de carros, saí do centro e decidi regressar exactamente pelo mesmo caminho que tinha feito. Não costumo repetir caminhos, por opção, mas desta vez queria sobretudo rolar e tinha gostado mesmo do caminho.

Ficam algumas fotos desta pequena viagem, que me soube mesmo muito bem!























Até para o ano e festas felizes!




24 outubro 2013

Alegoria dos Porcos

O texto a seguir não tem autor conhecido. Circula pela internet, dizem que o original, em espanhol, apareceu entre os alunos da Universidade de Piracicaba em 1981. Apenas as fotos foram acrescentadas.
(copiado daqui)

Alegoria dos Porcos

Certa vez, aconteceu um incêndio num bosque onde havia alguns porcos, que foram assados pelo fogo. Os homens, acostumados a comer carne crua, experimentaram e acharam deliciosa a carne assada. A partir daí, toda vez que queriam comer porco assado, incendiavam um bosque.

Photo: ELEANOR BENTALL

Mas fazia tempo que as coisas não iam lá muito bem: às vezes os animais ficavam queimados demais ou parcialmente crus. O processo preocupava muitoa todos, porque se o SISTEMA falhava, as perdas ocasionadas eram muito grandes - milhões eram os que se alimentavam de carne assada e também milhões os que se ocupavam com a tarefa de assá-los. Portanto, o SISTEMA simplesmente não podia falhar. Mas, curiosamente, quando mais crescia aescala do processo, tanto mais parecia falhar e tanto maiores eram as perdas causadas.


Em razão das inúmeras deficiências, aumentavam as queixas. Já era um clamor geral a necessidade de reformar profundamente o SISTEMA. Congressos, seminários, conferências passaram a ser realizados anualmente para buscar uma solução. Mas não acertavam o melhoramento do mecanismo. Assim, no ano seguinte repetiam-se os congressos, seminários, conferências.


As causas do fracasso do SISTEMA, segundo os especialistas, eram atribuídas à indisciplina dos porcos, que não permaneciam onde deveriam, ou à inconstante natureza do fogo, tão difícil de controlar, ou ainda às árvores ou à umidade da terra ou ao serviço de informações meteorológicas, que não acertava a quantidade das chuvas…
Na verdade, o sistema para assar porcos era muito complexo. Fora montada uma grande estrutura: maquinário diversificado; indivíduos dedicados exclusivamente a acender o fogo - incendiadores especializados (da Zona Norte, da Zona Oeste, noturnos e diurnos, incendiador de verão, de inverno, etc). Havia especialista também em ventos - os anemotécnicos. Havia um Diretor Geral de Assamento e Alimentação Assada, um Diretor de Técnicas Ígneas (com seu Conselho Geral de Assessores), um Administrador Geral de Reflorestamento, uma Comissão de Treinamento Profissional em Porcologia, um Instituto Superior de Cultura e Técnicas Alimentícias (ISCUTA) e o Bureau Orientador de Reforma Igneooperativas.
Havia sido projetada e encontrava-se em plena atividade a formação de bosques e selvas, de acordo com as mais recentes técnicas de implantação. Eram milhões de pessoas trabalhando na preparação dos bosques, que logo seriam incendiados. Havia especialistas estrangeiros estudando a importação das melhores árvores e sementes, fogo mais potente. Havia grandes instalações para manter os porcos antes do incêndio, além de mecanismos para deixá-los sair apenas no momento oportuno.


Foram formados professores especializados na construção dessas instalações. Pesquisadores trabalhavam para as universidades para formação dos professores especializados; fundações apoiavam os pesquisadores que trabalhavam para as universidades que preparavam os professores especializados na construção das instalações para porcos….
As soluções que os congressos sugeriam eram, por exemplo, aplicar triangularmente o fogo depois de atingida determinada velocidade do vento, soltar osporcos 15 minutos antes que o incêndio médio da floresta atingisse 47 graus, posicionar ventiladores-gigantes em direção oposta à do vento, de forma adirecionar o fogo, etc.

Um dia, um incendiador categoria AB/SODM-VCH (ou seja, um acendedor de bosques especializado em sudoeste diurno, matutino, com bacharelado em verão chuvoso), chamado João Bom-Senso, resolveu dizer que o problema era muito fácil de ser resolvido - bastava, primeiramente, matar o porco escolhido, limpando e cortando adequadamente o animal, colocando-o então sobre uma armação metálica sobre brasas, até que o efeito do calor - e não as chamas - assasse a carne.

Tendo sido informado sobre as idéias do funcionário, o Diretor Geral de Assamento mandou chamá-lo ao seu gabinete, e depois de ouvi-lo pacientemente, disse-lhe:
- Tudo o que o senhor disse está muito bem, mas não funciona na prática. O que o senhor faria, por exemplo, com os anemotécnicos, caso viéssemos aaplicar a sua teoria? Onde seria empregado todo o conhecimento dos acendedores de diversas especialidades?
- Não sei - disse João.
- E os especialistas em sementes? Em árvores importadas? E os desenhistas de instalações para porcos, com suas máquinas purificadores automáticas de ar? E os anemotécnicos que levaram anos especializando-se no exterior, e cuja formação custou tanto dinheiro ao país? Vou mandá-los limpar porquinhos? E os conferencistas e estudiosos, que ano após ano têm trabalhado no Programa de Reforma e Melhoramentos? Que faço com eles, se a sua solução resolver tudo? Heim?


- Não sei - repetiu João encabulado.
- O senhor não vê, que, se tudo fosse tão simples, nossos especialistas já teriam encontrado a solução há muito tempo atrás? O senhor com certeza compreende que eu não posso simplesmente convocar os anemotécnicos e dizer-lhes que tudo se resume a utilizar brasinhas, sem chamas! O que o senhor espera que eu faça com os quilômetros e quilômetros de bosques já preparados, cujas árvores não dão frutos e nem têm folhas para dar sombra? Vamos, diga-me.
- Não sei, não senhor.
- Viu? O senhor tem que trazer soluções para certos problemas específicos - por exemplo, como melhorar as anemotécnicas atualmente utilizadas, como obter mais rapidamente acendedores de Oeste (nossa maior carência), como construir instalações para porcos com mais de sete andares.


Temos que melhorar o sistema, e não transformá-lo radicalmente, o senhor, entende? Ao senhor, falta-lhe sensatez!
- Realmente, eu…. - suspirou João.
- Bem, agora que o senhor conhece as dimensões do problema, não saia dizendo por aí que pode resolver tudo. O problema é bem mais sério e complexo do que o senhor imagina.

12 agosto 2013

Cicloturismo. Bruxelas > Antuérpia > Bruxelas

Aviso: Post compriiiido, com imensas fotografias. (Clicar nas fotos para mais pormenor e melhor navegação entre elas)

No plano de conquista a pedais da Bélgica, Antuérpia, a capital da Flandres e 2ª grande cidade da Bélgica, não podia faltar. Ainda por cima, distando apenas meia centena de km de Bruxelas.

Desta vez com a companhia do Tiago, amigo de longa data, que acabou por embarcar nestas aventuras, de trabalhar em Bruxelas, de usar a bicicleta no dia a dia (uma estreia e um caso e sucesso) e também de "viajar" de bicicleta, num passeio de fim de semana.

Mais uma vez com dormida (e comida) graciosamente cedida pelo Steven, um membro dos Warmshowers, deu para ir no sábado e regressar no Domingo.

O plano de viagem, não haver plano. A rota foi sendo definida à medida que íamos andando, sendo o primeiro milestone chegar ao canal [de água] que seguia de Bruxelas para Antuérpia, embora a ideia não fosse acompanhar o canal até lá, mas ir passando por vários pontos de interesse, como cidades e vilas, etc.

Partida pelas 10h de Sábado. 1ª paragem a 300m de casa, num supermercado, para compras de última hora...

As "burras" carregadas com comida para a viagem, roupas e kit de ferramentas.
Uma holandesa com 3v, um alforge traseiro de 15 litros e uma bolsa de guiador.
Uma estradeira, com dois alforges Ortlieb, um de 20 e outro de 10 litros.

Ao longo de uma avenidazorra, circulámos quase sempre por ciclovia em cima do passeio (sim, também as há, mas menos mal desenhadas, com  transições suaves e cruzamentos bem marcados no pavimento - repare-se que a ciclo-faixa é puxada para a esquerda no cruzamento, para diminuir o risco de o automobilista não ver o ciclista).

Uma família de 5, numa deslocação urbana.

Rapidamente estávamos no canal, e ao longo dele seguimos até Vilvoorde, uma vila 12km a norte de Bruxelas. Pelo caminho, algumas pontes, um delas, uma espectacular ponte metálica levadiça com a particularidade de o tabuleiro levantar integralmente, mantendo-se na horizontal.








Vilvoorde, uma pequena vila belga típica, com a bela igreja, uma série de ruas pedonais, bastante gente nas ruas, mercados, etc. Depois de a atravessarmos pelo seu centro, voltámos à estrada "principal" que nos levaria até à cidade seguinte, a cerca de 14km.

Nessa estrada seguimos quase sempre por ciclovias segregadas, já com um cheirinho a Flandres, pois a estrada começava a ser mais dos carros e menos das bicicletas, algo que je n'aime pas...






Et voilá, em pouco tempo estávamos em Mechelen, uma agradável cidade, com um tamanho considerável, mas com o encanto de uma vila, com canais de água, ruas pedonais com imenso comércio e uma monumental igreja com um torre brutal. Vimos mais gente na rua numa hora do que num fim de semana inteiro em Lisboa. Para aqueles portugueses que querem dinamizar o comércio e só falam no estacionamento para os clientes, está aqui um belo exemplo... do contrário.
Depois de passear pelo centro, no meio de milhares de pessoas, muitas das quais de bicicleta, sem ver qualquer carro (mas vimos um autocarro passar calmamente, sem causar stress, pelo meio de uma multidão numa rua pedonal), acabámos por abancar para comer num pequeno jardim ao lado da Eglise Notre-Dame-au-delà-de-la-Dyle, a tal da torre magnífica, que se pode observar nas fotos em baixo.

















Já com um intenso "sabor" a Flandres, continuámos viagem, desta vez voltando a procurar o tal canal que ligava Bruxelas a Antuérpia, que nos tinha guiado na saída de Bruxelas.
Depois de umas voltinhas, lá encontrámos o dito, mas agora com imensa companhia de ciclistas, já que os "belgas-holandeses" são muito mais adeptos deste meio de transporte, vá se lá saber porquê...
Até Boom, vila de nome engraçado, e nosso próximo destino, acompanhámos o canal, com alguns km na roda de três BTTistas, inclusive.







 Rede ciclável da Flandres, com todos os cruzamentos entre troços numerados. Para planear uma viagem, basta registar o números dos pontos onde se pretende passar e depois... seguir as indicações.







Em Boom, fizemos uma breve paragem técnica - beber uma - e logo depois seguimos viagem, desta vez por uma via que atravessava várias pequenas localidades, já nos arredores de Antuérpia. Depois de uma paragem para comer, no meio de um parque de lazer, seguimos, pelos "passeios cicláveis" ao estilo holandês....





Uma vez em Antuérpia, combinámos o local de encontro com o nosso anfitrião que veio ter connosco (de Beveren, a 40' de bicicleta). Depois de uma voltinha pelo centro, (super - mesmo - cheio de gente, mais uma vez, com as ruas pedonais, com comércio, como receita de sucesso), aguardámos pelo Steven, que logo nos convidou para ir beber umas com uns outros amigos estrangeiros que estavam de visita à cidade.








Steven, o nosso anfitrião, levando-nos para um bar onde os seus amigos nos esperavam.



Depois de umas cervejas e gins, ainda aproveitámos para subir ao topo do museu MAS, num edíficio, uma espectacular torre, forrada de pedras vermelhas e com grandes paredes de vidro ondulado, que simboliza a moderna Antuérpia. A vantagem de ser recebido por um local é precisamente esta, sobretudo quando não há muito tempo para visitar calmamente a cidade - vamos logo aos pontos chave.

Localizado numa pequena doca interior, a partir da qual Napoleão Bonaparte começou a expansão até ao tamanho actual, um dos maiores portos comercial do mundo e o 2º maior da Europa (depois de Roterdão).
A torre do museu tem 10 andares e à medida que íamos subindo, íamos assistindo à exposição (sobre desporto, na altura) e a cada vez mais extensas vistas sobre a cidade e o seu porto.




O porto original de Antuérpia era só isto.



 
 Os cicloturistas, já com 60km na pernas...
 
Tudo o que a vista alcança, para este lado, faz parte do porto de Antuérpia.

Depois desta bela visita, ainda estava reservada outra surpresa de engenharia. Este canal, que se viu nestas fotos ficava entre Antuérpia e o nosso destino, Beveren, e para o atravessar iríamos passar por baixo dele, um túnel 33m abaixo da superfície, construído há mais de 100 anos com recurso a técnicas complexas tais como recorrer a nitrogénio para congelar a terra encharcada para rasgar o túnel. Outra atracção nesta obra são as escadas rolantes de madeira que se preservam até hoje, sempre o uso de materiais da época, para manter a obra intacta.
 O edifício que tem a entrada para o túnel.

As famosas escadas rolantes. Até os degraus são construídos com peças em madeira.

 Vista para baixo.

 Vista para cima.

Dentro do túnel, bem fresquinho no verão e menos frio no inverno.
Com 155m de comprimento é espaçoso suficiente para o tráfego pedonal e de ciclistas.

Depois de subir num mega elevador na outra margem chegámos a um bairro habitacional, com alguma reintegração social, segundo o nosso cicerone. Nada que se notasse, para nós, portugueses, pois o ar da zona era muito normal.
Passados um par de quilómetros o Steven perguntou-nos se queríamos ir pela via principal ou por "dentro", num caminho menos urbano. Obviamente escolhemos a 2ª hipótese e valeu totalmente a pena, já que fizemos um visita ao mundo rural belga, ali, apenas a 6 ou 7km do centro da 2ª maior cidade belga.
(Continuo maravilhado como um país com um terço da área de Portugal, mas com mais uns milhares de habitantes - tem 11 milhões - consegue ter as cidades imediatamente rodeadas de campo e não de subúrbios... Não serão eles os excepcionais, mas sim, nós os sub-desenvolvidos, claro)










E assim chegámos ao nosso destino, a casa do Steven em Beveren, situado 10km a oeste de Antuérpia. Depois de um belo banho e um óptimo jantar ainda apanhámos boleia de carro de volta para a cidade para uma visita nocturna (o Steven trabalhava no turno da noite e não nos pode fazer a visita guiada nocturna :P).



Depois de esplanármos um bocado (ficar horas nas esplanadas é desporto nacional) e de darmos uma volta a pé pelo centro, sem descobrir a movida local, acabámos por regressar de taxi pelas 3h da manhã...

No dia seguinte, depois de um magnífico pequeno almoço, rumámos a Antuérpia para ver mais um pouco da cidade e depois seguimos para sul, em direcção a Bruxelas, desta vez directos a Mechelen, mas sempre, sempre por estradas super secundárias. A ideia era não repetir o caminho e foi um belo passeio.
Ficam as fotos e comentários.

Saída de Beveren...
A entrada para o túnel.
Antuérpia vista no outro lado do canal.
"Ciclo-pose" entre escadas rolantes.
A câmara municipal e a estátua alusiva à cena que deu origem ao nome da cidade, Antwerpen - a mão arremessada. Sucintamente, a lenda reza assim... havia um gigante que cobrava a quem navegasse num rio que passa ao longo da cidade (aquele que agora tem um túnel).  Quem se recusasse a pagar ficava sem mãos, pois o gigante cortava-as e atirava-as para o rio. Até que um dia, um jovem romano de nome Brabo enfrentou o gigante. Depois de matar o gigante, cortou-lhe a enorme mão e atirou-a ao rio. Essa mão apareceu na margem do rio onde agora é Antuérpia.

Estes cavalos ainda se avistam muito, por cá.
Eram cavalos de trabalho pesado, os motores de antigamente.
A estação de comboios de Antuérpia. Um monumento brutal.
Um vislumbre do interior. Não há câmara que capte a grandeza deste hall.

Lateral da estação de comboios.

Uma das "praias" de Antuérpia.


Família a pedais (aqui são considerados normais) :).

Casal nas bicicletas de uso partilhado.

Bairro upper class que atravessámos.

Upper class, mas com telhado de colmo...

Uma ciclovia que nos permitiu atravessar um campo enorme.


Mais uma vila (e a respectiva igreja) para trás...

Segregação à holandesa.

De volta às ciclovias laterais ao canal (as que usámos na ida).

Um café junto ao canal com "algumas" bicicletas. :)

Ponte para ciclistas e peões.


Com um joelho a começar a chatear, transformei o Tiago em domestique, e assim galgámos Km em grande ritmo, com o meu joelho a aguentar sem estragar.

De volta a Mechelen, a vila surpresa da viagem.

Palavras para quê...
(abancámos na esplanada da esquerda)


Mais uma Hoegaarden...

Mais um casalinho....

E saímos pelas portas da cidade!

Um dos muitos exemplos de medidas de acalmia de tráfego (os dois sentidos sobrepõem-se um estrangulamento)

Uma ciclovia que tinha avistado da estrada, na ida e que não perdemos, no regresso.

Duas palavras para isto: Bru tal.


Última paragem para a última bucha, em Vilvoorde.

A cidade de Bruxelas aparece no horizonte.

Corrida com o Tram. Deu empate.

Chegada à rotunda de Montgomery, uma espécie de rotunda do Marquês de Lisboa, mas com muito menos carros.

Foto finish 1.
Foto finish 2.

Fim. Foi um post longo, com muitas fotos, mas é impossível comprimir ou deixar mais fotos de lado, de tanto que há para contar e mostrar .... Espero que gostem. Já tenho mais viagem para contar. Em breve, em breve.