19 junho 2009

Saborear o Verão

Como transformar um frete numa situação agradável? Fazê-lo de outra forma!

Ontem e antes de ontem tive que ir ao centro da cidade de Lisboa. Vivo em Lisboa, mas longe do centro, no caso, a distância a percorrer era de cerca de 6 km para cada lado.

18h, 35ºC, trânsito infernal - solução: Bicicleta!!! (óbvio para quem lá leu aqui uma coisas) :D

Desta vez não vou descrever, mas sim comparar com a alternativa mais banal, o carro.

Bicicleta (B) vs Carro (C):

1-B. Monto-me na bicicleta e sinto o agradável calor misturado com uma brisa provocada pela deslocação do movimento.
1-C. Entro no carro, estacionado ao sol, abro todas as janelas para minimizar o efeito forno que se sente no carro, mas em vão, pois cá fora está igual. Sento-me no banco quente e ligo o AC no máximo sem sentir o seu efeito nos primeiros minutos.

2-B. Começo a pedalar e cortar caminho, por debaixo de prédios, passeios (sempre respeitando o peão), passadeiras, parques e num instante estou na ciclovia e chego ao Campo Grande.
2-C. De semáforo em semáforo, arrefecendo mas pouco, costas transpiradas, sigo atrás do trânsito, dando as voltas que as vias me obrigam a dar.

3-B. Agora estou na ciclovia do Campo Grande, debaixo da sombra de árvores frondosas, conduzo sem mãos, costas direitas, observo em redor o verde que me absorve - estou quase no campo. O trânsito que me ladeia parece longe, fisicamente e emocionalmente. Não me vejo dentro de um carro, ali. Dá-me gozo estar onde estou.

3-C. Estou num pára-arranca, ora dentro de um túnel, ora num semáforo, ora vermelho, ora verde. Vejo o carro da frente e olha para a faixa do lado para tentar perceber se vale a pena mudar-me para lá e ganhar uns metros agora, para os perder mais à frente. Tento abstrair-me da situação olhando em redor, mas só o faço superficialmente pois o trânsito requer a minha verdadeira atenção.

4-B. Rotunda de Entre-Campos. Apesar do intenso trânsito desta rotunda, de bicicleta posiciono-me sempre à frente de todos e sou sempre o primeiro a arrancar quando o verde chega.
Campo Pequeno. Aqui chego em modo híbrido, do eixo da via da Av. República, entro numa passadeira e entro na praça do Campo Pequeno, ampla e calcetada. Sem mãos circulo à volta da praça de touros. Os peões observam-se, uns admirados, outros com inveja, outros saudosos dos tempos em que andavam de bicicleta...
4-C. Exactamente mesmo do que no ponto 3-C.

5-B. Pela Rua Dona Estefânia deslizo e sinto a brisa mais fresca que a sombra ali proporciona. Na Pascoal de Melo sou o veículo mais rápido e silencioso (e atento!) e ultrapasso todos os carros que ocupam, parados, aquele troço até à Almirante Reis. Mais uns minutos e chego rapidamente ao meu destino. Só quando entro num edifício começo a sentir o calor e a transpiração aumenta!
5-C. Depois de mais e mais trânsito, buzinadelas, arranques para passar no laranja-vermelho, mudança e luta pelas faixas mais rápidas, chego ao destino e procuro, procuro, procuro e encontro um lugar, apertado, semi-ilegal. Saio do carro, agora fresquinho e sinto o bafo do Verão e começo a transpirar ligeiramente.

O regresso seria semelhante.

De bicicleta é um agradável dia de Verão, saboreia-se a temperatura, os jardins, a arquitectura dos prédios antigos.
De carro, detesta-se o calor, detesta-se o trânsito, detesta-se a cidade e sua confusão e falta de estacionamento.

No final de tudo, como fiz a viagem em vão, porque não consegui tratar do assunto que pretendia resolver, pensei com um sorriso na cara: Ficou o passeio!

Como imaginam, não pensaria assim caso tivesse ido de carro....

Tentei passar as sensações, mas só mesmo experimentando é que se percebe.

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