Deslocado na Bélgica, um país cerca de 30% da área de Portugal, ainda por cima com excelentes condições para andar de bicicleta, quer nas cidades, quer nas ligações entre cidades, nada melhor do que aproveitar conhecer o país de bicicleta e aos fins de semana.
Com Bruxelas no centro do país, quase todos os pontos de interesse ficam entre 40 a 120km de distância, distância perfeita para viajar de bicicleta em um ou dois dias.
Através da rede Warmshowers arranjei alojamento gratuito. Trata-se de uma espécie de Couchsurfing mas muito melhor já que é uma rede composta ciclistas, quase sempre cicloturistas que oferecem alojamento e não só a ciclistas como eles. Ou seja, tudo gente boa!
Escolher o 1º destino foi fácil, pois o critério foi ter o menos trabalho possível a escolher a rota. Como foi uma decisão meio em cima da hora e já tinha ouvido falar nos canais que ligavam as várias cidades, procurei no mapa um cana que saísse de Bruxelas e um destino a cerca de 60km, a distância que queria percorrer para 1ª experiência.
Assim cheguei à escolha de Charleroi, uma cidade a sul, já perto da fronteira com França, sem qualquer interesse turístico. Como o destino é um pormenor de uma viagem e consegui com relativa facilidade arranjar um ciclista para me albergar, não houve grande dúvida. Charleroi estava confirmada!
Escolhido o destino, foi só fazer a lista de coisas a levar, ferramentas, roupa, farnel e água, et voilá.
O colchão de espuma serviria para a viagem, para as pausas e para eventual percalço na casa onde ia ficar, já que não era certo se o colchão de ar estava ou não furado (estava e acordei no chão, ou seja no saco de cama em cima deste colchão - passou-se).
A viagem.
A primeira fase foi composta pelo atravessamento de uma grande parte de Bruxelas, já que o canal passa do lado oposto à minha zona.
Um autêntico dia de verão e cheio de pessoas na rua. Por outro lado, para aproveitar ao máximo, muitos dos habitantes de Bruxelas (os que podem) saem da cidade. Valeram-me as faixas para o Tram e foi sempre a andar (seria de qualquer maneira, de bicla...).
Passado 20 minutos estava no canal que me ia levar até ao meu destino.
Este canal faz parte de uma rede imensa de canais fluviais que a Bélgica tem, que serviram e servem com via de comunicação, sobretudo para transporte de grandes quantidades de materiais como areia, pedra, ferro velho, etc, etc. Além disso servem para barcos de recreio e as férias em família em embarcações são muito comuns por aqui.
No canal em questão, que liga Bruxelas-Charleroi, existem sempre duas boas ciclovias ao seu lado, por ser dos mais antigos, dado que antes eram os trilhos onde circulavam os cavalos que puxavam os barcos (antes de terem motores).
Daqui para a frente foi sempre a andar, sempre plano, com umas subidas de poucos metros sempre que uma ponte cruzava o canal (e não tinha espaço para o tal caminho por baixo). Apesar da viagem ser grande, acho que não parei de me maravilhar com a paisagem e com o conforto com que se circula de bicicleta ao lado deste canal.
A passagem de barcos é constante, apesar de ser fim de semana. Estes barcos são mesmo muito grandes e batem facilmente vários camiões TIR em termos de capacidade. Os comandantes deste tipo de barcos vivem a bordo com as suas famílias e há escolas internas especiais para os filhos destes profissionais.
Vista para uma eclusa, que são muito frequentes e são a única forma de "desnivelar" os canais ao longo do terreno de forma a serem totalmente navegáveis.
As paragens foram frequentes, quer para apreciar a paisagem, quer para tirar fotos e tentar captar (sem sucesso) a beleza de tudo aquilo, quer para beber água e comer uma bucha.
A quantidade e diversidade de aves aquáticas com que me cruzei foram outro ponto alto, já que sou um bird watcher em potência, sempre atento e sempre maravilhado.
Muitos pescadores aproveitam este cenário para passar o dia, sozinhos, com amigos ou com a família, e até pescar! Neste caso, um grupo de compinchas admitiram logo que queriam era beber à vontade, longe das mulheres. Assim que abrandei "meteram-me" um copo na mão e claro, fiquei por ali uns minutos na conversa e a arranhar o francês (e a ouvir maravilhas sobre o Medronho português que um deles tinha provado através de um colega tuga que trazia da terrinha).
Cerca de um terço da viagem estava feito, nessa altura. Mais ou menos a meio desta zona do mapa:
Mais uma bela eclusa...
E a mãe de todas a eclusas - Plano inclinado de Roquières - onde num desnível de 68 metros, um sistema de carruagens de quase noventa de comprimento, metros cheias de água, transportam os barcos entre os dois planos de água. São cerca de 5.000 toneladas (por carruagem) que são puxadas através de um sistema de cabos, contra-pesos e roletes. Impressionante. A torre é uma autêntico arranha céus.
Uns metros depois, um túnel por baixo do canal.
Quase a meio da viagem, foi altura para um paragem mais demorada, com colchão estendido e com direito a descalçar. Á sombra, pois o sol, mesmo belga estava a fazer mossa.
Uma ponte sobre um doss muitos canais que ligam com o canal principal.
Os últimos kms de canal, antes de desviar para as estradas normais, para evitar o menos directo percurso do canal. Mais à frente, iríamos-nos encontrar de novo.
Um olhar sobre a auto-estrada fluvial.
Em vez de seguir o canal até Pont-à-Celles, decidi cortar e poupar uns kms.
Aqui deu-se o primeiro contacto com as estradas belgas. O campo, verde num verde próprio de um país onde chove muito, passa a ser ainda mais dominante e as pequenas vilas com as suas casa de tijolo pequeno e maciço, ao natural, vão passando com a calma e silêncio que tornam toda a viagem ainda mais agradável.
Paragem para um gelado, que acabou por ser uma coca-cola gelada, e carregar o iphone para ter bateria suficiente para me orientar e ligar ao Adrien quando chegasse a Charleroi.
Uma, mais uma, igreja em Roux, mesmo antes de voltar a encontrar o canal novamente.
Mais uma passagem numa ponte, muito estética para tirar uma bela foto (digo eu).
Uma central eléctrica, mesmo à chegada ao destino.
Mais uma família a desfrutar das condições que este canal proporciona para quem quiser aproveitar (a água não é límpida, antes pelo contrário, mas dá para banhos de sol).
Uma vista de cima da eclusa, acabada de encher para este par de barcos conseguir "subir" o desnível.
Mesmo a chegar a Charleroi, uma cidade de origem industrial - uma das primeiras cidades industriais do mundo - agora em decadência, mas ainda com um tamanho considerável a nível nacional e com um aeroporto internacional.
O ponto de encontro.
Já seguindo o meu host, a caminho da sua casa que ficava do outro lado da cidade.
Mais uma ponte.
E finalmente em casa do Adrien.
Assim se conta uma história sobre uma viagem com cerca de 60 e poucos kms, que feita de bicicleta se transformou num dia espectacular, em que a solidão não teve oportunidade de aparecer, tal a riqueza da companhia da envolvente natural e não só. Cicloturismo no seu melhor.
Um dia deste vem a 2ª parte, a do regresso a casa. Foi feita maioritariamente por caminho diferentes, pois não fazia sentido repetir as vistas com tanta coisa por descobrir. Foi outro dia maravilhoso.
(Continuação na parte II)







.jpg)

