Há quase sempre soluções, mas não há receitas!
A crise está aí, embora muitos ainda andem a dormir e a fazer a vida de sempre, há uma "rubrica" que tem vindo a aumentar na contabilidade caseira, a da mobilidade.
São os preços dos combustíveis a subir, o custo dos passes e bilhetes dos transportes públicos a disparar, as SCUTS que passaram a ex-SCUTS.
Muitos perguntarão, "quais são as alternativas ao automóvel", ou "como posso poupar nos transportes", ou até "que transportes públicos há na minha zona", pois muita gente nem sequer sabe que há alternativas viáveis mesmo à sua porta.
Como seria de esperar, não há receita universal, nem sequer regional. Cada caso é um caso :).
A primeira coisa a fazer é conhecer as alternativas. Para tal, é preciso sair, ainda que mentalmente, da zona de conforto.
O transporte individual é, normalmente, aquele que acarreta maiores custos directos (combustíveis, portagens e estacionamento) e muitos custos indirectos (manutenção, impostos, seguros, etc). Esta opção é aquela que mais sufoca o orçamento familiar.
O gasóleo está a ser vendido a 1,5€!!! - só no último ano, subiu 15%. Em relação há 10 anos, o gasóleo custa hoje mais que o dobro (125% de aumento).
Apesar o desenvolvimento urbano ter sido muito mau no últimos tempos, com a proliferação de bairros-dormitório, com acessos rodoviários e pouca oferta capaz de transportes colectivos competitivos, quase sempre há alternativas.
Será preciso ir de carro?
A 1ª questão a responder é se é preciso mesmo ir de carro? Por vezes a distância é tão curta que uma caminhada de 5 a 20 minutos resolve a questão. Já assisti a relatos de pessoas que passaram a ir a pé e estavam contentíssimos com a opção, económica, saudável e libertadora (do carro e do trânsito).
Hoje em dia, muitas pessoas nem sequer têm a noção das distâncias a pé entre dois pontos e desvalorizam a capacidade mais básica que temos, a de andar (a pé!). Muitas vezes a reacção é "Foi muito mais rápido do que pensava!"
A bicicleta
A bicicleta surge aqui como uma alternativa. Há hoje uma maior noção geral sobre o potencial da bicicleta como meio de transporte, há melhor aceitação pelos condutores de outros veículos, há condições físicas/ infraestruturas que (por vezes) introduzem verdadeiras melhorias e segurança e existem N fontes de informação, entidades e até indivíduos disponíveis para ajudar a começar.
Para distâncias até 8km em meio urbano, a bicicleta é o meio de transporte mais eficaz e trás um conjunto enorme de benefícios associados, desde económicos, de saúde, sociais, etc.
Os transportes públicos
"Que transportes públicos existem na minha zona?"; "Para onde vão?"; "A que horas passam?"; "Quanto custam?"; "São directos?"; "Terei que fazer ligações?"; "Quanto tempo demoram?" são perguntas que devem ser respondidas de seguida.
A esta equação deverá juntar-se a combinação de modalidades. Por vezes a conjugação duma caminhada, da bicicleta (ou do carro) com outro meio de transporte permite tornar viável uma opção que por si só parecia não servir.
A bicicleta pode ser transportada dentro de alguns transportes públicos, ou em todos no caso de ser uma dobrável. Também há a hipótese de a deixar num parque junto a uma estação, para ser novamente utilizada no sentido inverso, ao final do dia (aconselha-se o uso de uma bicicleta sem grande valor/aspecto e um bom cadeado, para minimizar o risco).
A scooter.
É a minha solução actual.
Não se trata de uma solução para todos. Andar de mota é perigoso (as estatísticas comprovam-no), mas o risco está muito associado ao comportamento do próprio.
Digo 'scooter' e não 'mota', de propósito. Tenho muitos anos de experiência e a velocidade é o factor que mais aumenta o risco de acidente, em geral, e a gravidade dos mesmos, para condutores de motas, em particular.
Andar de scooter E de uma forma defensiva, calma, sem arriscar manobras malucas é uma solução económica, prática de enfrentar as viagens diárias para o trabalho. A chuva? é mais fácil de resolver esta questão nas motas, pois não há exercício físico (transpiração) e temos sempre onde guardar todo o material.
Não é uma experiência como a de conduzir uma bicicleta, não é tão económico (pode ser metade em relação a um carro), mas é uma solução que deve ser considerada, se as anteriores não servirem.
O tempo da viagem.
O tempo gasto é um factor importante e normalmente de difícil análise com isenção. Há estudos que comprovam que há uma tendência optimista de quem passa muito tempo dentro de um carro quando analisa esta questão.
Eu próprio já constatei isso em várias conversas que tive com amigos e colegas que usam o carro nas suas deslocações diárias. Normalmente o tempo médio está muito perto do tempo óptimo no seu raciocínio e há uma tendência para chamar excepção aquilo que é muitas vezes aproximado à média.
Depois há ainda métodos de medição de tempo que são totalmente desviados, pois não contabilizam o tempo de estacionar, ou até entre a porta de casa/trabalho e o próprio veículo. Medir tempo é de porta-a-porta!
Um factor bastante importante é a forma como passamos esse tempo, o da viagem. É totalmente diferente ir a conduzir (normalmente até com algum stress, sobretudo quando o tempo é à conta) do que ir sentado no comboio a ler um livro, ou ir a pedalar e sentir o sol a bater na cara e o cheiro do café ao passar numa rua de comércio (é só um exemplo!).
Cada um terá a sua bitola, mas parece-me mais interessante demorar um pouco mais mas usar efectivamente esse tempo a fazer uma coisa que nos dá prazer.
Out-of-the-box!
Depois há um conjunto de alternativas, mais pontuais, que podem passar por dividir o carro com um colega ou vizinho, mudar de emprego para um menor remunerado mas com custos de deslocação bem menores ou inexistentes, etc, etc.
Soube recentemente de um caso, verídico, que uma rapariga comprou um carro a crédito, a 8 anos, e depois de pagar a prestação mensal, sobravam-lhe 50€, que obviamente não cobriam os custos de deslocação para o emprego. Claro que viva com os pais, que lhe cobriam o resto dos custos.
Agora pergunto, não seria melhor ficar em casa "quieta", ou seja a usar o tempo de uma forma mais lucrativa?
É um caso extremo... será assim tanto?
A solução radical.
A fenómeno dos subúrbios é muito acentuado em Portugal. Milhares de pessoas vivem/dormem longe dos locais onde passam a vida, onde trabalham, onde têm os filhos na escola. Por vezes, mesmo ao fim de semana caminham para os centros das cidades onde não vivem e para onde caminharam toda a semana, seja para eventos culturais, seja ver os amigos, etc.
Não são tempos fáceis para mudar de casa, mas muita vezes, a solução mais económica, mais confortável, mais TUDO é, efectivamente ir morar para o centro, onde estão os empregos, as melhores escolas (muitas públicas), os melhores transportes públicos, as melhores condições para andar de bicicleta, os melhores cinemas, teatros, etc, etc, etc, tudo o que as cidades têm de bom!
A troca de mais m2 (na casa) por km's percorridos é uma concessão que sai muito cara e (também há estudos que o comprovam) que esses m2 extra são sobrevalorizados face ao uso e benefício que realmente acrescentam.
Como disse o Guterres, "É só fazer as contas!". Quanto custa a Prestação da casa + colégio dos filhos + despesas de transportes? Quanto vale o tempo que gasto a mais diariamente? Quando é que vou recuperar esse tempo perdido? (Nunca mesmo!).
Talvez a conclusão seja que afinal as casas no centro da cidade não são assim tão caras.
Conclusão.
Se há desconforto, financeiro ou de outra natureza, é preciso provocar, lutar pela mudança. O carro está demasiado entranhado e (muitas vezes) é preciso reequacionar sem essa "constante"!