O Orçamento de Estado para 2012 tem sido muito debatido e combatido na nossa sociedade, sobretudo por causa do corte dos Subsídios de Férias e Natal dos funcionários públicos e as subidas do IVA em alguns produtos e sectores de actividade.
No meio disto, o
corte de cerca de 800km de ferrovia do já curta rede nacional, deixando várias
capitais de Distrito sem comboios, e com
poupanças muito duvidosas, pode parecer pouco importante. Mas não é. Nada mesmo.
Os nossos cidadãos, maus gestores dos seus dinheiros, à imagem dos que nos governam, não perceberam ainda que gastam uma das maiores fatias do seu orçamento familiar na rubrica de transportes e que o grande razão é o uso (e abuso) do automóvel particular.
O automóvel particular é caro! É caro na aquisição, é caro na manutenção e caro na operação/uso.
Os Portugueses usam e abusam deste transporte. Fazem-no porque não há muitas opções, mas também o fazem porque gostam do conforto e também do status que o automóvel supostamente lhes dá.
A crise já está a alterar algumas coisas, nomeadamente a compra de automóveis novos, que tem caído a pique. O lado do status começa a ter "menos interesse", vá.
No que diz respeito ao uso, também há alguma redução, mas ainda muito pequena. Aqui não basta querer, pois em muitos casos não há, de facto, alternativas competitivas.
Para estas pessoas a liberdade conquistada depois do 25 de Abril, depois da adesão à Comunidade Europeia e da chegada dos milhões, traduziu-se em consumo. Quanto mais consumiam, mas livres se sentiam. Quanto maior fosse a casa, mais livres e realizados eram, quanto melhor fosse o carro mais kms podia fazer mantendo o conforto e aumentado a velocidade, etc, etc.
O crédito alavancou ainda mais esta liberdade. Para quê comprar só a casa, se o banco empresta também para o carro. Para quê uma casa à medida se o crédito dá para uma "máior"?
O desafogo financeiro (induzido pelo crédito) e o baixo custo da energia também levou a que fossem feitas poucas ou nenhumas contas ou planeamento financeiro na altura de decidir onde comprar a casa. Porquê viver no meio da cidade no apartamento caro e pequeno se posso viver no campo com o mesmo valor, com uma casa muito maior? As viagens casa-trabalho e trabalho-casa? São baratas e rápidas e as estradas estão cada vez melhores (mais largas, mais alternativas, etc).
E chegámos onde estamos hoje. O orçamento de estado e familiares vão ter que encolher. Há que cortar no lado da despesa, até porque as receitas (ordenados) estão a cair ou a desaparecer e as despesas continuam a subir (Impostos, energias, etc).
O problema é que agora as famílias têm "boas" casas, "bons" carros, "boas" estradas à sua disposição mas o custo destas comodidades não podem ser descartados porque não há alternativas.
Casas - Hoje não se vende uma casa do pé para a mão. Muitas das casas têm hipotecas com valor superior ao valor de mercado actual. Sobretudo as casas dos subúrbios, porque quem compra hoje já começa a fazer mais contas, digo eu...
Carros - Além de desvalorizarem cada vez mais, o custo de utilização tem subido constantemente. O estilo de vida de quase todos não se adapta a vidas sem carro, ou vários carros por família, desde as compras de bens de primeira necessidade, a levar os filhos à escola, ir para o emprego, viajar para qualquer destino, seja perto ou não.
Estradas - É o que resta em temos de mobilidade. Foram caras de construir e ainda por cima compradas a crédito recorrendo a concessões magníficas para os privados que ficaram com elas. Os nosso filhos ainda vão andar a pagá-las. Usá-las é cada vez mais caro. As SCUT passaram a ex-SCUT e o custo deverá continuar a ser transferido par os seus utilizadores. Quem as quiser largar, fica muitas vezes sem opções.
As "opções" que a população pede, também tem que se lhe diga, porque passam quase sempre por mais estradas, mas sem pagamento. Estradas, mas das boas, não é uma estradita com curvas e que passe em aldeias...Nah, isso é para os locais, que nós queremos é chegar longe!
Hoje, dependentes deste modelo de mobilidade, os portugueses têm que
cortar noutras despesas, bem mais críticas para o bem-estar.
Hoje Portugal e o portugueses estão presos aquilo que lhes foi vendido como uma forma de liberdade. Estão presos ao automóvel e aos crescentes custos a ele associados.
Como cá há poucos estudos, deixo aqui a referência a um
estudo feito nos EUA, país incomparavelmente mais dependente do carro do que Portugal.... ou nem por isso, já que segundo a Forbes, Portugal ultrapassou os EUA em nº de carros
per capita (embora não se perceba de onde vieram estes dados e o
Eurostat tenha valores bem diferentes referentes a 2008)
Para mim é escandaloso, Portugal continuar a remar contra a maré, desinvestindo nos Transportes Públicos, os únicos realmente sustentáveis e continuar a investir no modelo automóvel particular, ainda que eléctrico. A aposta no carro eléctrico, com redes de abastecimento do mais avançado do que é feito no mundo é mais uma herança do Sócrates, ao nível do "Plano Magalhães" e que desviaram fundos preciosos para uma onda tão moderna que ainda ninguém tem prancha para a surfar, ou alguém já viu mais do que um ou dois carros eléctricos? Eu já vi dois. Juro!