10 junho 2011

Cicloturismo familiar - do Plano C ao plano B

Ter um plano C é fácil. Exige pensar out of the box. Se ter não é fácil, executá-lo ainda é mais difícil...

Não é novidade a minha paixão por bicicletas. Não é novidade que tenho algumas. Não é novidade que recentemente investi numa long-tail e a razão pela qual o fiz foi aumentar mais ainda a percentagem de viagens feitas de bicicleta, sobretudo em família.

Dia 9 de Junho, foi o dia para o qual estava preparado um grande plano [C], a viagem e férias de bicicleta para toda a família. Quatro pessoas, três bicicletas, muita carga, farnel para viagem, muita boa disposição e espírito de aventura.

Eis o relato deste memorável dia:
O dia começou cedo. O Afonso, excitado com o que aí vinha, acordou antes da 8h e disse logo "Eu queria mesmo acordar cedo!".
A Joana teve uma manhã normal pois era dia de escola e tinha um teste. Só a fui buscar às 10h45, depois do teste.
O tempo esteve sempre muito tremido e com alguns aguaceiros, o que deixou algum stress, sobretudo se tivéssemos que sair sem folga para apanhar o comboio e estivesse a chover bem na altura. Não aconteceu!

A saída de casa estava programada para as 12h00. Toda a bagagem só foi finalizada e carregada naquela manhã. Umas compras de última hora (de bicicleta, claro) e 1 minuto antes da 12h00 estávamos todos montados nas bicicletas, prontos para o grande dia que se esperava, fazer Telheiras > Portimão com bicicletas, usando muito comboio.
As bicicletas fariam a ligação Casa->estação de Entre-Campos e estação de Portimão->Casa.
A grande inovação seria deixar o carro em casa para uma viagem longa e usar apenas bicicletas nos dias de férias no Algarve.

Nesta altura, tivemos a companhia e ajuda do João Oliveira, vizinho e amigo, que nos acompanhou de Telheiras até ao cais da estação de Entre-Campos, sempre documentando esta saída de Lisboa com fotos e filmes e terminando com uma preciosa ajuda a levar as bicicletas carregadas (long-tail semi-aviada e bicicleta da minha mulher com quatro alforges) até ao cais, utilizando as escadas rolantes.
Uma última foto do grupo junto das bicicletas, despedimo-nos do João e passado uns 10/15 minutos, o nosso comboio chegou.

Uma vez instalados, depois das bicicletas atracadas em zona própria (excepto a da minha mulher que foi encostada sobre um degrau), foi uma viagem super tranquila.


Comeu-se, bebeu-se, tiraram-se fotografias e os miúdos, felizes da vida, deliciaram-se com novas paisagens, vistas com outra calma e conforto a que ainda não estão habituados, pelo menos em longas distâncias.


Cerca de 1h depois, chegámos a Setúbal. Dali, iríamos seguir no Inter-Regional até Tunes, e daí num outro comboio até Portimão.
Como tínhamos tempo (uns 40 minutos), dirigi-me com os miúdos até às bilheteiras, situadas num piso inferior, para confirmar a linha, etc, deixando a minha mulher no cais com as três bicicletas.

Ao aproximar-me das bilheteiras, começo a ouvir a conversa entre o cliente e a funcionária e duas palavras saltaram do texto: "greve" e "regional". Comecei a gelar e com vontade de falar por cima da outra pessoa... Rapidamente chegou a minha vez e o inesperado confirmou-se, o comboio que íamos apanhar fora suprimido porque, "o revisor morava não-sei-onde-lá-para-o-norte e como não teria comboio para regressar a casa ao final do dia por causa da greve anunciada para o dia seguinte e por isso não ia haver comboio".
(Ainda agora, enquanto escrevo estas linhas, fico sem acção quando relembro esta justificação)

A partir daqui foi o descalabro... Até ali tinha sido tudo perfeito, perfeito demais, diria.
Aquele comboio era o 2º e último comboio do dia que podia transportar bicicletas.

Entretanto apareceu uma esperança, o Inter-Cidades ia passar dali a uns minutos e "se o revisor estivesse bem disposto" poderia deixar-nos seguir viagem com as bicicletas... era uma esperança. Entretanto a Srª espreitou e viu a nossa frota... "São essas todas? Esqueçam, nem vale a pena lá ir!!!" :/ Claro que fomos.
Toca a subir ao cais da linha 1 (felizmente o elevador era comprido e a long-tail cabia lá) para fazer o choradinho ao revisor. Depois de uma falha destas por parte da CP, restava a boa vontade de um funcionário....

Chegou o comboio, corro para o homem, que saiu de uma porta mais atrás, explico-lhe rapidamente o sucedido e peço-lhe para nos levar. Perguntou quantas bicicletas eram e deu o OK.
Corro para a minha mulher, acenando-lhe logo ao longe para pegar nas bicicletas e entrar... Nisto, como as portas que estavam perto das bicicletas não eram das normais, acabamos por nos aproximar do revisor e ele apercebe-se que uma da bicicletas era a long-tail.... e "epá, essa grande não dá!!" Pediu desculpas apressadamente, fez sinal ao maquinista e nós, depois de uns segundos de esperança, vimos o comboio partir... sem nós.

Ironicamente, a mesma bicicleta que nos abriu os horizontes e nos levou até ali, foi a razão por termos ali ficado, a meio da viagem, sem alternativas para continuar...
Claro que a "bicicleta grande" foi a desculpa que ele precisava para nos dar um não. Foi um alívio para ele não ter que "pisar o risco" e permitir bicicletas a bordo, mesmo depois de a CP nos ter abandonado no meio, sem aviso prévio, sem qualquer preocupação pelos seus clientes.

Finalmente derrotados, fomos até ao exterior da estação, comer qualquer coisa, já que os miúdos suplicavam por comida e também por explicações, pois perceberam que algo não estava a correr bem...
Milhares de opções passaram-nos pela cabeça... continuar de bicla via Tróia? Mas o tempo, os miúdos e a Joana a pedalar não permitiam grandes aventuras.
Com muita dificuldade e angústia decidimos voltar para trás... Dali a minutos havia um comboio para Lisboa e devido a isso, saímos rapidamente do jardim onde os miúdos almoçavam o frango/farnel e voltámos a estação da desgraça.

Com os miúdos confusos e nós ainda sem ter caído na real, fizemos a viagem de regresso, já sem a alegria da manhã, pelos menos os adultos. Só a sair da estação em Entre-Campos é que o Afonso realmente se apercebeu que estava a voltar para casa. Nem na passagem por cima do Tejo, quando dissemos que era novamente Lisboa, quis acreditar dizendo "Lisboa? não, vamos para o Algarve!".
Eram 16h e estávamos novamente em Lisboa. Pedalar até casa foi feito em modo silencioso.



No Campo Grande, o Afonso começou a cabecear e a adormecer... tive que lutar para ele manter os olhos aberto e o corpo hirto. Chegámos a casa, mas não foi a chegada esperada. Em vez de triunfantes, chegámos derrotados. Derrotados pelo absurdo.

O excelente plano C falhou. Restava-nos pensar no plano B.

A opção carro parecia-nos "nojenta", nesta altura, depois de todo este plano. Como só haveria comboio no Sábado (devido à greve anunciada para Sexta), ir nesse dia também parecia inapropriado, já que voltaríamos na Terça seguinte.

Ao entrar em casa, a escolha foi óbvia. Voltar a casa, abri-la, desarrumá-la, para voltar a sair em breve, não seria opção. O carro teria que ser usado, por muito que nos custasse.
Parecia um plano A... mas foi salvo. A minha mulher disse logo "levamos [em cima do carro] duas bicicletas e temos lá outra."

E assim foi. Consegui-se fugir do plano A e delinear um plano B.

[o carro substituiu o comboio]

[Bagagem da bicicletas, transferida. Nunca a bagageira andou tão vazia]

Claro que o plano B, usando o carro, também tinha os seus imprevistos...

[2ª circular completamente entupida]

Nove horas depois da primeira saída de casa, chegámos a Portimão, duas horas depois da chegada prevista na viagem original.

Para cúmulo, pouco depois de iniciarmos a viagem de carro, soubemos pelo rádio que a greve tinha sido desconvocada.
Azar dos azares, fomos afectados por uma greve que nunca chegou a acontecer... Troika, dêm uma olhada pela REFER e CP, paalease!

Pessoalmente cheguei com uma sensação mista, derrota-vitória. Derrotado por mais uma vez ter trazido o carro. Vitorioso por sentir que não são obstáculos destes que me/nos vão impedir de continuar a trilhar o plano C.

Hoje, na continuação do plano B, promoveu-se a bicicleta de senhora a cargo-bike-not-so-long-tail-with-a-seat.

[Alforge duplo DIY com tela reciclada (de publicidade de rua) e almofada para pendurinha]

Ao seguirmos para a praia juntamente com o meu sogro, confirmou-se... este plano B está a saber muito, muito bem.


Moral da história, o plano C está forte, será continuado, revisto e aumentado.

Esta foi mais uma aventura que não será esquecida e ficará sempre como a 1ª viagem de cicloturismo da família, mesmo não tendo sido bem assim.

Já me estou a imaginar daqui a uns anos, far, far away, à frente de uma fogueira com a família, bicicletas ali ao lado, começando uma conversa "Lembram-se na nossa 1ª viagem de bicicleta??"

06 junho 2011

Ostentar

É chegar de bicicleta ao trabalho, num parque tecnológico no meio do nada, onde praticamente toda a gente chega de carro porque não há alternativas.

É entrar na garagem do edifício, cheia de carros-status, passar airosamente ao lado da cancela, estacionar e partilhar um elevador com colegas que perguntam admirados "Vem de bicicleta para o trabalho??".

Nunca gostei de ostentar, mas com a bicicleta, quando acontece, dá-me um certo prazer! :)

01 junho 2011

Uma aventura para lado nenhum

Andar de bicicleta como meio de transporte altera a vida de quem opta por o fazer.
Uma das alterações é a adição de uma dose aventura na vida do dia-a-dia, o ram-ram. Pode ser visto com um ponto negativo, sobretudo pelos detractores, e há muitos por aí, como já referi antes.
Aventura é uma componente que desaparece na vida ao longo dos anos, sobretudo quando se vivem vidas muito mais controladinhas, standerizadas e formatadas.
Para quem anda de carro, o maior imprevisto nos dias que correm é a quantidade de trânsito que se apanha, aliás, justificação sempre bem aceite por quem espera muito por alguém – Aposto que é das desculpas falsas mais usadas, tal a boa aceitação que tem.
De bicicleta, o maior imprevisto, dos poucos aliás, é sem dúvida alguma a meteorologia, sobretudo em dias de tempo incerto.
É claro que não é tanto quanto os automobilistas pensam, pois estes nem se apercebem que é raro o dia em que chove muito tempo seguido – fechado num automóvel não se tem uma percepção acertada das condições atmosféricas (nem de uma carrada de outras coisas…).
No sábado passado, dia incerto, o plano familiar era passar de bicicleta pelo Campo Pequeno a meio da tarde. Estava a decorrer o 1º Encontro Cycle Chic de Lisboa e a Cenas a Pedal tinha lá uma tenda/loja. Como tinha encomendado um “assento” para os passageiros da Xtracycle, assim passava por lá e aproveitava para ver como estava a decorrer o encontro chic.
[Quando a carga é irrequieta, demora-se mais a acondicioná-la]
À medida que nos íamos preparando e atrasando, o céu foi escurecendo, até que passados poucos minutos de termos começado a pedalar, começou, naturalmente a chover. Eu na X com os miúdos e minha mulher na dela (por prevenção à chuva a Joana não levou a dela para simplificar em caso de molha).
Quanto mais andamos de bicicleta, mais nos relaxamos com a cor do céu – não há utilizador de bicicleta que não faça isto. Há três razões principais: 1) Uma melhor percepção do tempo devido à maior exposição a este; 2) Gostar imenso de usar a bicicleta como meio de transporte; 3) Mais abertura para a “aventura”.
Seguíamos, todos frescos, já com as pingas a engrossar, e aceleramos o andamento até pararmos debaixo da Padre Cruz, num grande viaduto que serve peões e a ciclovia Telheiras-Entrecampos.
Enquanto aguardávamos por uma aberta, desfrutámos daquele abrigo. Desfrutar é gozar o momento, nem que seja rir da situação em que nos metemos e imaginar como vamos sair dela.
O Afonso corria feito louco de um lado para o outro.
A Joana, menina, imaginava como sairíamos dali, enquanto a chuva se adensava e os trovões começavam…

Enquanto os minutos passavam, as esperanças que mudasse o tempo foram ficando menores, e fotografias se tiravam… :p
Como tínhamos um casal amigo ali perto – com quem tínhamos combinado este passeio, mas aguardava uma aberta para sair de casa – em troca de mensagens, ofereceram um resgate dos miúdos dali para fora de carro.
Toca de vestir os impermeáveis...
... e enquanto o carro chegava e não chegava, preparei-me para levar os miúdos até à estrada…


Claro que eles, instintivamente, meteram-se debaixo do meu poncho. Foi uma risada completa aqui e, ficou a ideia para outra altura… :)
Resgate dos miúdos feitos, e nós decidimos seguir para casa, mas… distraídos com o resgate nem analisámos bem as condições do momento e foi precisamente quando caiu a maior carga de água. Andei 100mts, a subir, e dei meia-volta e voltei à “toca”… Esperámos mais um pouco e lá seguimos, hilariantes… no meio do barulho da chuva conseguia ouvir as gargalhadas da minha mulher :).
O meu poncho (na Xtacycle leva-se sempre muita coisa e este já lá estava!!!) tapava-me quase todo, o problema era por baixo pois ainda não tenho pára-lamas, apesar de já estarem encomendados… :(
Passado minutos estávamos em casa, encharcados da cintura para baixo, mas muito bem dispostos. Os miúdos aguardavam dentro do carro, estacionado à nossa porta.
Assim se passou uma parte de Sábado. Se podia ter sido evitado? Podia, mas não teria sido a mesma aventura. De certeza que desta ninguém se vai esquecer e a vida é também é feita de coisas como estas.
Depois de um lanchinho, acabámos por passar de carro pelo Campo Pequeno para fazer o que estava previsto.
Curiosidade: o pessoal da Cenas a Pedal também estava encharcado e nem impermeáveis levaram… “Olhámos para o céu, mas estava calor, por isso pensámos, que se lixe, vai ser uma cena tropical…” – Eu não disse que os ciclistas relaxavam em relação às condições meteorológicas…. Eu disse!
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Já esta semana, o Tagus Park ganhou mais uma ciclista, com grande contribuição do serviço gratuito da MUBi, o Bike Buddy. O Rui Costa foi o voluntário de serviço e sem nunca lá ter ido antes, cumpriu a sua tarefa com distinção. O Trajecto foi Amadora->TagusPark com comboio à mistura. Quem ainda pensa que não é possível, pense novamente, pois as desculpas começam a ser poucas.



27 maio 2011

A minha "X"tracycle

Finalmente tenho a minha frota completa com a chegada da "Xtracycle" (até uma dobrável já temos, fruto de uma generosa oferta de um bom vizinho - conhecer vizinhos é só vantagens!!).

Xtracycle é a marca do kit que alonga a bicicleta (afastando a roda de trás cerca de 40cm) e lhe dá uma capacidade de carga estrondosa com duas bolsas laterais enormes e de grande versatilidade. Ainda por cima é escalonável com a adição de mais peças da mesma marca que encaixam facilmente.
É comum chamar "eXtracycle" ou simplesmente "X" a bicicletas com este kit, tal a importância que ele assume na bicicleta. Com ele, de facto, a bicicleta ganha toda uma outra dimensão que só quem experimenta e usufrui das suas capacidades consegue efectivamente perceber.

Como tem sido?

O 1º fim-de-semana foi super Xtraciclado.
O 2º teve um domingo 100% a pedal, mas "só" entre Telheiras e Sta. Apolónia, depois Entre-Campos, Av. Igreja e regresso a casa, 7h depois, isto tudo em modo carregando os cerca de 45kg que terão a Joana e Afonso juntos. Como é andar com os dois? É fácil! 21 mudanças ajudam e as pernas vão dando para os declives.

O que muda?

Já tínhamos forma de andar com o Afonso. Já tínhamos alforges. Já fazíamos piqueniques de bicicleta.... Agora, fazemos tudo isto e mais com muito mais facilidade.

1º Poder levar os dois filhos significa ir a todo o lado.
A Joana já pedala pela cidade, mas não está apta para 1) distâncias superiores a 2/3km, sobretudo com declives; 2) lidar com muito trânsito, ou por outra o trânsito não está apta a lidar com ela, que até já consegue ir "direitinha" - no outro dia um automobilista "atencioso" achou que era boa ideia buzinar alto-e-bom-som mesmo atrás dela para sinalizar a sua presença!!! Claro que a miúda assustou-se e ficou nervosa, e eu, claro, também tendo até gritado com o condutor no semáforo seguinte... enfim.
Levar os dois é super seguro e prático, além de dar espectáculo toda a viagem (fica tudo a olhar!), já que vamos ao ritmo de adulto, e podemos ir para todo o lado. Começamos a olhar para qualquer destino de uma forma muito menos carro-dependente. É um verdadeiro abre Ciclo-Horizontes!

2º Carga, muita carga
Como dizia um cromo com quem trabalhei, "por exemplos, um exemplo":

Ontem, dia de compras. Lista feita, 5 minutos pedalando até ao Hipermercado de Telheiras, compras feitas sem qualquer restrição de volume....


Carregado nos porta-bagagens....

[Já com o volante para os passageiros instalado, obtido e transformado na cicloficina]

Estacionar! Outra grande vantagem desta opção, para mim. Assim posso levar as compras até à porta/quintal de casa mesmo. De carro chego a percorrer 30mts entre o carro e a porta de casa.


Para ilustrar melhor a quantidade de compras (quase 20kg), decidi fazer esta foto:


Algumas considerações:

Pedalar com peso lateral - Assim que comecei a pedalar com todo este peso senti o balanço e tive que conduzir de forma mais suave. Uns 20mts foram suficientes para me habituar. Tive muitas manobras apertadas depois disso e foi na boa.

Carregar a carga - Confesso que ainda nas compras pensei "posso comprar o que quiser que cabe tudo na X".... Arrumar foi mais complicado, pois requer alguma arrumação. Acabei por meter tudo à maluca, ainda por cima só levava metade das coisas ensacadas. Não foi fácil, mas estou convencido que a prática permitirá levar mais 50% de volume/peso sem stress.

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Ontem, foi dia de Massa Crítica, onde já não ia há muito. Foi muito fixe, com 126 participantes, muitos estrangeiros, um patinador, um corredor, muito bom tempo, muito corking pacífico, um andamento super tranquilo.


Para acabar em beleza, desvio da Massa para ir jantar com a Joana (também participante da Massa) e Gonçalo para os lados da Av. António Augusto Aguiar. Pela 1ª vez percorri a totalidade da ciclovia Duque D'Avilla e gostei bastante, pena os pilaretes demasiado em cima da mesma...

Curiosidade: Do restaurante até a meio do Campo Grande, demorámos o mesmo a pedalar do que demorou o Gonçalo no seu carro (que usou devido a ter um joelho lesionado!), às 22h30, ou seja, sem qualquer tânsito.

23 maio 2011

Leva a biciquéta

Sábado à tarde, de saída para ir buscar a minha filha a uma festa de um colega em Frielas:

Afonso - "Vais buscar a mana de biciquéta?"
Eu - "Não, vou de carro."
Afonso - "Porquê?"
Eu - "Porque é longe e vou por uma estrada com muito trânsito e rápido (A8)..."
Afonso - "Leva a biciquéta, que é mais rápido e passas pelo meio dos carros!"


19 maio 2011

Orgulho.

Um dia destes, ao chegar com a minha filha (8 anos) à natação....

"Oh pai, quando for crescida, se calhar, não vou precisar de ter um carro. Tenho a bicicleta, o Metro o Comboio, os Táxis...."

Ingenuidade, diriam alguns. Percepção, direi eu.

16 maio 2011

Um fim de semana sobre (duas) rodas

Este foi um fim de semana especialmente activo no que diz respeito à duas rodas. Rodas de bicicleta, claro!

Ainda na sexta-feira, a meio do dia, acabou a novela long-tail. A minha mulher foi buscar a dita ao outro lado da cidade. Mesmo debaixo de uma calor intenso, provou-se ser a opção certa e ficou imediatamente fã!


[Já em serviço, no Parque das Conchas]

Foi um longo processo.
Desde do e-mail enviado a 7 de Dezembro onde começava por dizer "Pois é, estou a deixar de conseguir resistir ao chamamento da Xtracycle e das long tails... :)", depois de vários conselhos, soluções propostas, soluções analisadas (tendo em conta o budget), depois da espera pela, entretanto cancelada, UTE-que-nunca-mais-vinha (não passou de íman na porta do frigorífico!) , chegámos a esta última opção.

Ainda na sexta-feira à noite, tive que me deslocar à Estrela, para mais uma reunião da MUBi. A Gocycle permitiu-me fazer Telheiras-Estrela em 20min!!! Não sei se consegui fazer o mesmo de carro... e estacionei a 3 metros da mesa onde reuni! :)

Sábado.
Dia da sessão de fotos para o projecto Rodas de Mudança. A Xtracycle começou a trabalhar cedo. A Joana voltou do ballet já a pedais, and loving it, claro!
Não tem sido fácil convencê-la a ir a pedalar para o ballet, mas a long-tail veio simplificar a coisa, tirando o carro definitivamente da equação. Por cada vez que ela for a pedalar, passa a ter direito a ir uma vez à pendura na Xtracycle :)
Já tem 8 anos e andar, passivamente, sentadinha à pendura não é solução, portanto assim conseguiu-se uma solução de compromisso. O carro, perde mais uma mini-tarefa! Uma das poucas, em termos de ram-ram do dia-a-dia!

Nos preparativos para o evento, os alforges da Xtracycle começam a dar cartas. Cabo eléctrico, 12 cervejas, 2l coca-cola, máquina fotográfica, biscoitos, toalha, copos, etc, etc, foram engolidos pelos alforges sem sequer ameaçar enchê-los. UAU!
Afonso a bordo e siga para o local.
Ainda não tinha referido mas esta bicicleta faz a Gocycle parecer uma bicicleta banal. Não há quem não repare, pare de falar e muitos fazem comentários espontâneos e audíveis...

Não me vou alongar muito, para já... mas passar uma tarde numa rua com mais de 50 pessoas interessantes, dos 6 meses aos 82 anos, com piquenique, mantas num pequeno relvado, música, etc e tudo o que isto significa em termos de utilização e vivência no espaço público... Já valeu a pena! Foi espectacular!!
Obrigado a todos os que participaram. Em breve haverá continuidade, pois o projecto ainda está a começar!




Mais tarde, ao regressar a casa, tempo ainda para uma sessão de pedaladas com a criançada. Como é fácil regressar à infância, em cima de uma bicicleta. Na praceta e à volta das casas, passei um bom bocado com os meus filhos e três filhos de uns vizinhos. A Xtracycle foi o centro das atenções, tipo carrocel onde todos queriam andar. À vez e aos pares (até trios!) lá fui levando a canalha, pedalando sempre com os restantes, pois havia mais bicicletas. Os que não tinham bicicleta correram! Eram seis crianças, dos 4 aos 39 anos!

Cheguei a levar a carregar cerca de 80kg de crianças de uma só vez.... ehehe.





[a turma]

Domingo normal.
Começa a ser uma rotina normal, mas nem por isso banal. Passar a tarde no Parque das Conchas com piquenique. Transporte: Bicicletas, claro.
A Joana vai ganhando experiência e cada vez pedala melhor pelas ruas.

Mais uma vez a Xtracycle provou ser demasiado diferente e por onde passava fazia virar cabeças...


Ao fim da tarde, ainda houve oportunidade para passar um bocadinho bem passado na horta comunitária de Telheiras e contribuir, regando, plantando girassóis e tratando das pessoas (permacultura!), pois acabámos por fazer companhia ao Filipe e à Helena que lá estavam.


Sem dúvida, foi um fim de semana em cheio e sem sair da freguesia!

10 maio 2011

Rodas de Mudança


[Desenho de Gonçalo Baptista]

Há muito que tinha uma ideia que consistia em fazer uma demonstração de que andar de bicicleta na cidade de Lisboa não era uma coisa difícil e que não era preciso ser maluco ou super-herói para o fazer.

Inicialmente pensei numa série de entrevistas a ciclistas urbanos, mas depressa conclui que era complicado em termos de operacionalização. Nessa altura cheguei a este nome.

Mais recentemente, unindo esforços com uma vizinha (com a Iniciativa de Transição em Telheiras conheci imensos vizinhos/amigos), chegámos a um formato diferente, semelhante a muitos outros que há pelo mundo fora.
Assim, debaixo da chancela da MUBi - Associação pela Mobilidade em Bicicleta, da qual sou sócio-activo, apresento esta iniciativa e convido, a quem se enquadrar no espírito da mesma, a participarem nela.

Fica o convite:


"Rodas de mudança" é uma iniciativa de imagem em prol da utilização da bicicleta como meio de transporte, desenvolvida pela MUBi, coordenada por César Marques e Joana Janeiro.
Através da fotografia/retrato de ciclistas urbanos nas suas bicicletas, procurando captar a imagem "normal" e individual de cada um no seu dia-a-dia feito de bicicleta, pretende-se divulgar esta cultura passando a mensagem que não é preciso ser um super-herói para usar a bicicleta como meio de transporte.
Pretende-se, também, realçar a individualidade de cada um e mostrar a diversidade/estilo das pessoas que já adoptaram este meio de transporte, através das bicicletas que usam e seus acessórios (alforges, cestos, etc), carga que normalmente transportam, roupa que geralmente vestem, etc.
No próximo dia 14 de Maio (Sábado), pelas 15h será a sessão de fotos.
Terá lugar em Telheiras, junto à Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro.
As imagens serão divulgadas num site e provavelmente noutro meios, consoante as parcerias e patrocínios que se venham a desenvolver posteriormente, e cada "modelo" assinará um termo de autorização para esses efeitos.
Para tornar o convívio (ainda) mais agradável, vamos ter comes-e-bebes, em modo picnic, ou seja, cada um é convidado a levar alguma coisa para posterior partilha. Não é preciso levar muito, basta a quantidade equivalente ao que se come/bebe. ;)
Este convite pode (e deve) ser estendido a familiares e amigos que se enquadrem no espírito da iniciativa.
Para facilitar a organização do evento, pedimos o favor de confirmarem a vossa presença, indicando o n.º de pessoas, no caso não irem sós.
Resumindo:
Apareçam com a vossa bicicleta, filhos!, roupas, acessórios e carga do vosso dia-a-dia a pedal para as fotografias serem o mais realistas possíveis.

Obrigatório, só o bom humor.
César e Joana
Rodas de Mudança - MUBi

05 maio 2011

Um excelente artigo sobre mobilidade sustentável (Mário Alves)

Mobilidade sustentável
Com o compromisso generoso e esclarecido de muitos
(Mário Alves, especialista em Mobilidade)

Tal como o Marco Paulo, temos dois amores. O amor à Cidade e o amor ao Carro. Como muitos amantes preferíamos não ter que escolher. O primeiro é profundo e secular. O segundo é uma paixoneta com poucas décadas. Mas da experiência adquirida nos últimos anos, sabemos que ao desenharmos, requalificarmos ou construirmos cidade temos que decidir – ou desejamos e sonhamos uma cidade para as pessoas ou colocamos as nossas prioridades na fluidez das máquinas. Na maior parte das situações esta escolha não significará interditar o acesso e circulação a veículos motorizados, mas sim reduzir substancialmente a sua presença e velocidade nas zonas urbanas mais frágeis.

Teremos que perceber que as cidades surgiram para facilitar o encontro entre pessoas. Esta forma de fortalecer as redes entre indivíduos, permitiu o consolidar das preocupações cívicas – a civitas é a origem da política e fundamental para que as pessoas debatam e decidam sobre causas comuns. Por outro lado, as cidades sempre foram fundamentais para a prosperidade e comunhão de ideias. Mais será assim, num mundo onde a produção de riqueza é o resultado do encontro criativo entre pessoas – em vez de fábricas precisaremos de esplanadas, passeios generosos, jardins bonitos.

O aumento da velocidade permitida pela motorização levou à desagregação das cidades e consequente enfraquecimento das ligações entre as pessoas. Hoje, quando encontramos amigos (porque será que já não os vemos há tanto tempo?) reparamos que muitos já não vivem na Rua Forno do Tijolo ou na Praça de Londres ou na Rua da Indústria. Trocamos moradas com ruas sem nome “a sul do IC32”, ou “junto ao nó de Queluz”. Durante os anos 80 e 90 do século passado, o preço da gasolina baixou em preços reais. Foram durante esses anos que fomos comprando casas cada vez maiores fora das cidades. No fundo trocamos metros quadrados por combustível e por mais horas dentro do carro.
Foi também nessas décadas que recebemos muitos fundos estruturais da Europa que gastamos em auto-estradas, viadutos e pontes. Íamos ao mesmo tempo desmantelando as poucas linhas de caminho de ferro que tínhamos. Depois de atingir cerca de 10 dólares por barril em 1999, o petróleo foi aumentando de preço e substituímos o nosso carro por outro, a gasóleo. Mas nos últimos anos a situação complicou-se. Sabemos também que se complicará ainda mais no futuro. A própria Agência Internacional de Energia já anunciou que, segundo os seus cálculos, os recursos petrolíferos atingirão o seu pico antes de 2020.

Nestas últimas décadas apostamos, sem muito pensar, num modelo de território e em estilos de vida que só agora começamos a perceber que tiveram consequências terríveis sobre a vida das pessoas e sobre o meio ambiente. Sabemos também, se pensarmos um pouco mais, que poderão ter consequências trágicas quando o custo da energia continuar a aumentar – muitas famílias poderão ter dificuldades em se deslocar de automóvel e chegar aos seus trabalhos ou às suas escolas.

Muitos dos nossos subúrbios nunca foram testados para a velhice. Numa Europa, cada vez mais idosa, ainda não sabemos bem como é que uma população idosa poderá viver em ambientes onde o supermercado mais próximo está a 20 minutos a pé, depois de atravessar auto-estradas, vias-rápidas sem percursos claros e seguros a pé. Como funcionarão as redes sociais quando os filhos e os netos começarem a ter dificuldades financeiras para se deslocar, num mundo em que o preço da energia pode atingir valores muito mais altos que os actuais?

Talvez seja altura de pensar que a bebedeira de petróleo barato foi um comportamento pouco maduro de uma adolescência desperdiçada e repensarmos o nosso regresso à cidade. Desejar poder levar os nossos filhos pela mão à escola, comprar o pão pelo caminho, cumprimentar os vizinhos, e no regresso parar na retrosaria para conversar sobre o projecto imobiliário que projectam para o nosso bairro. Quando vivemos numa cidade compacta, onde a maior parte das nossas actividades estão a poucos minutos a pé ou de bicicleta, a vida torna-se mais simples, fácil e prazenteira. Para as crianças poderem visitar os amigos não é necessário horas de negociação com o pai ou a mãe – “chauffeurs” que levam as crianças de garagem em garagem, quando estas deviam estar a observar com atenção o mundo que as rodeia à velocidade de quem brinca.

Mas teremos também que repensar os nossos subúrbios. Densificar as interfaces de transporte, melhorar o desenho urbano e espaço público para que seja mais fácil e seguro o uso de modos mais sustentáveis. Contrariar o planeamento por zonamentos mono-funcionais, relaxando regulamentos de forma a diversificar preexistências. Parar de construir campus universitários ou grandes unidades hospitalares entre auto-estradas e vias rápidas, onde é difícil o acesso em Transporte Público e as deslocações a pé.
Para alterarmos os estados das coisas temos que ter uma visão partilhada. Um sonho optimista mas realista de um futuro possível e mais feliz. Muitas das medidas a tomar implicarão inverter estratégias – serão temporariamente dolorosas e polémicas. É por isso importante nunca perder a visão. Para por em pratica uma visão partilhada, temos que comunicar e conversar mais sobre o futuro. Perceber que a mobilidade é uma consequência de estilos de vida que nos impõem ou que escolhemos. Teremos que assumir também que as nossas opções de vida ou modo de transporte têm consequências sobre os todos.

Felizmente já existem exemplos de muitas cidades que conseguiram se repovoar e transformar, de uma forma voluntarista e planeada, a forma das pessoas se deslocarem. Sabemos que uma cidade compacta e densa é mais humana e os seus habitantes gastam menos energia. Por isso, também, é importante requalificar edifícios que teimam permanecer vazios, com um pacote de medidas que puxem todas para a mesma direcção.

Construir mais e mais infra-estruturas viárias para resolver o problema do tráfego e da segurança rodoviária é como tentar apagar o fogo com gasolina. É necessário investir em transportes públicos e devolver os centros urbanos aos peões. Temos que tratar do espaço público das ruas, sem ser necessário obras grandiosas em espaços monumentais. Temos que investir nos transportes públicos de proximidade e leva-los, com coragem e por vezes em sítio próprio, para os centros urbanos. Os peões são a argamassa de qualquer sistema de Transporte Público eficiente. Para que funcione bem, devemos ser generosos na dimensão dos passeios para que possam ter árvores, bancos e espaços para conversar.

Por vezes será necessário reduzir o estacionamento – dificilmente podemos lamentar-nos que há demasiado tráfego e pouco estacionamento na mesma cidade. Como medida para reduzir as cargas energéticas e ambientais, consequência do uso excessivo do automóvel, várias cidades europeias têm vindo a reduzir a oferta de estacionamento há várias décadas. Teremos por isso que rever os planos director municipais porque não faz sentido, por exemplo, aprovar edifícios em centros urbanos, junto a transportes públicos, com a obrigação de albergar centenas de lugares de estacionamento para comércio e serviços. Será necessário estabelecer índices máximos de estacionamento em zonas servidas por transportes públicos e não mínimos como é habitual nos regulamentos em Portugal.

Nesta diversidade de soluções alternativas ao automóvel, a bicicleta tem o seu lugar. Para alguns trajectos com menos de 8 km, ou superiores se usada em combinação com os transportes públicos, a bicicleta terá que ser uma das apostas ao serviço da acessibilidade de proximidade e da "cidade dos bairros". Encorajar e integrar hoje a bicicleta no sistema de transportes, é obrigatoriamente falar do território em que ela se deve movimentar: ordenado, calmo, seguro e requalificado, acessível aos peões e também aos ciclistas. É necessariamente conceber ou redesenhar ruas como espaços onde convivemos e não simplesmente como corredores para circular. Tal implica vontade, meios financeiros, tenacidade e sobretudo um projecto de território, para que se possa conter e ordenar a urbanização difusa e de baixa-densidade, reabilitar os centros históricos, restaurar os espaços públicos, restabelecer corredores correntemente retalhados por auto-estradas, viadutos, avenidas de tráfego intenso, estacionamento desordenado. Sob pena de fracassarem, as politicas de incentivo à utilização da bicicleta não podem surgir isoladamente do sistema de tráfego e basear-se, por exemplo, no traçado de ciclovias. Deverão sim, ajudar a ordenar o ambiente rodoviário de forma a encorajar a partilha do espaço e o respeito dos automobilistas pela bicicleta como modo de transporte e fazer parte de um pacote integrado de medidas que promovam o ordenamento do território, a requalificação urbana e a mobilidade sustentável.

Algumas das soluções terão que ter uma dimensão metropolitana. Os progressos conseguidos por Madrid na melhoria do sistema de transportes foram o resultado da criação da autarquia metropolitana. O ordenamento do território disperso das periferias precisará de parques de estacionamento dissuasores servidos por transportes públicos rápidos e eficientes. Para pagar o sistema e cuidar da sua equidade, será necessário uma profunda revisão da fiscalidade sobre os transportes para que cada modo pague um valor mais próximo do que de facto custa à sociedade. Por mais que nos custe, não podemos continuar a ignorar quem são os utentes do modo de transporte que causa os congestionamentos, a poluição atmosférica, o ruído, os acidentes rodoviários.

Mas mais importante ainda, teremos que perceber que uma sociedade próspera e feliz exige o compromisso generoso e esclarecido de muitos.

[Engenheiro Civil pelo Instituto Superior Técnico, especialista em transportes e mobilidade com o grau de mestre pelo Imperial College London]