27 maio 2011

A minha "X"tracycle

Finalmente tenho a minha frota completa com a chegada da "Xtracycle" (até uma dobrável já temos, fruto de uma generosa oferta de um bom vizinho - conhecer vizinhos é só vantagens!!).

Xtracycle é a marca do kit que alonga a bicicleta (afastando a roda de trás cerca de 40cm) e lhe dá uma capacidade de carga estrondosa com duas bolsas laterais enormes e de grande versatilidade. Ainda por cima é escalonável com a adição de mais peças da mesma marca que encaixam facilmente.
É comum chamar "eXtracycle" ou simplesmente "X" a bicicletas com este kit, tal a importância que ele assume na bicicleta. Com ele, de facto, a bicicleta ganha toda uma outra dimensão que só quem experimenta e usufrui das suas capacidades consegue efectivamente perceber.

Como tem sido?

O 1º fim-de-semana foi super Xtraciclado.
O 2º teve um domingo 100% a pedal, mas "só" entre Telheiras e Sta. Apolónia, depois Entre-Campos, Av. Igreja e regresso a casa, 7h depois, isto tudo em modo carregando os cerca de 45kg que terão a Joana e Afonso juntos. Como é andar com os dois? É fácil! 21 mudanças ajudam e as pernas vão dando para os declives.

O que muda?

Já tínhamos forma de andar com o Afonso. Já tínhamos alforges. Já fazíamos piqueniques de bicicleta.... Agora, fazemos tudo isto e mais com muito mais facilidade.

1º Poder levar os dois filhos significa ir a todo o lado.
A Joana já pedala pela cidade, mas não está apta para 1) distâncias superiores a 2/3km, sobretudo com declives; 2) lidar com muito trânsito, ou por outra o trânsito não está apta a lidar com ela, que até já consegue ir "direitinha" - no outro dia um automobilista "atencioso" achou que era boa ideia buzinar alto-e-bom-som mesmo atrás dela para sinalizar a sua presença!!! Claro que a miúda assustou-se e ficou nervosa, e eu, claro, também tendo até gritado com o condutor no semáforo seguinte... enfim.
Levar os dois é super seguro e prático, além de dar espectáculo toda a viagem (fica tudo a olhar!), já que vamos ao ritmo de adulto, e podemos ir para todo o lado. Começamos a olhar para qualquer destino de uma forma muito menos carro-dependente. É um verdadeiro abre Ciclo-Horizontes!

2º Carga, muita carga
Como dizia um cromo com quem trabalhei, "por exemplos, um exemplo":

Ontem, dia de compras. Lista feita, 5 minutos pedalando até ao Hipermercado de Telheiras, compras feitas sem qualquer restrição de volume....


Carregado nos porta-bagagens....

[Já com o volante para os passageiros instalado, obtido e transformado na cicloficina]

Estacionar! Outra grande vantagem desta opção, para mim. Assim posso levar as compras até à porta/quintal de casa mesmo. De carro chego a percorrer 30mts entre o carro e a porta de casa.


Para ilustrar melhor a quantidade de compras (quase 20kg), decidi fazer esta foto:


Algumas considerações:

Pedalar com peso lateral - Assim que comecei a pedalar com todo este peso senti o balanço e tive que conduzir de forma mais suave. Uns 20mts foram suficientes para me habituar. Tive muitas manobras apertadas depois disso e foi na boa.

Carregar a carga - Confesso que ainda nas compras pensei "posso comprar o que quiser que cabe tudo na X".... Arrumar foi mais complicado, pois requer alguma arrumação. Acabei por meter tudo à maluca, ainda por cima só levava metade das coisas ensacadas. Não foi fácil, mas estou convencido que a prática permitirá levar mais 50% de volume/peso sem stress.

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Ontem, foi dia de Massa Crítica, onde já não ia há muito. Foi muito fixe, com 126 participantes, muitos estrangeiros, um patinador, um corredor, muito bom tempo, muito corking pacífico, um andamento super tranquilo.


Para acabar em beleza, desvio da Massa para ir jantar com a Joana (também participante da Massa) e Gonçalo para os lados da Av. António Augusto Aguiar. Pela 1ª vez percorri a totalidade da ciclovia Duque D'Avilla e gostei bastante, pena os pilaretes demasiado em cima da mesma...

Curiosidade: Do restaurante até a meio do Campo Grande, demorámos o mesmo a pedalar do que demorou o Gonçalo no seu carro (que usou devido a ter um joelho lesionado!), às 22h30, ou seja, sem qualquer tânsito.

23 maio 2011

Leva a biciquéta

Sábado à tarde, de saída para ir buscar a minha filha a uma festa de um colega em Frielas:

Afonso - "Vais buscar a mana de biciquéta?"
Eu - "Não, vou de carro."
Afonso - "Porquê?"
Eu - "Porque é longe e vou por uma estrada com muito trânsito e rápido (A8)..."
Afonso - "Leva a biciquéta, que é mais rápido e passas pelo meio dos carros!"


19 maio 2011

Orgulho.

Um dia destes, ao chegar com a minha filha (8 anos) à natação....

"Oh pai, quando for crescida, se calhar, não vou precisar de ter um carro. Tenho a bicicleta, o Metro o Comboio, os Táxis...."

Ingenuidade, diriam alguns. Percepção, direi eu.

16 maio 2011

Um fim de semana sobre (duas) rodas

Este foi um fim de semana especialmente activo no que diz respeito à duas rodas. Rodas de bicicleta, claro!

Ainda na sexta-feira, a meio do dia, acabou a novela long-tail. A minha mulher foi buscar a dita ao outro lado da cidade. Mesmo debaixo de uma calor intenso, provou-se ser a opção certa e ficou imediatamente fã!


[Já em serviço, no Parque das Conchas]

Foi um longo processo.
Desde do e-mail enviado a 7 de Dezembro onde começava por dizer "Pois é, estou a deixar de conseguir resistir ao chamamento da Xtracycle e das long tails... :)", depois de vários conselhos, soluções propostas, soluções analisadas (tendo em conta o budget), depois da espera pela, entretanto cancelada, UTE-que-nunca-mais-vinha (não passou de íman na porta do frigorífico!) , chegámos a esta última opção.

Ainda na sexta-feira à noite, tive que me deslocar à Estrela, para mais uma reunião da MUBi. A Gocycle permitiu-me fazer Telheiras-Estrela em 20min!!! Não sei se consegui fazer o mesmo de carro... e estacionei a 3 metros da mesa onde reuni! :)

Sábado.
Dia da sessão de fotos para o projecto Rodas de Mudança. A Xtracycle começou a trabalhar cedo. A Joana voltou do ballet já a pedais, and loving it, claro!
Não tem sido fácil convencê-la a ir a pedalar para o ballet, mas a long-tail veio simplificar a coisa, tirando o carro definitivamente da equação. Por cada vez que ela for a pedalar, passa a ter direito a ir uma vez à pendura na Xtracycle :)
Já tem 8 anos e andar, passivamente, sentadinha à pendura não é solução, portanto assim conseguiu-se uma solução de compromisso. O carro, perde mais uma mini-tarefa! Uma das poucas, em termos de ram-ram do dia-a-dia!

Nos preparativos para o evento, os alforges da Xtracycle começam a dar cartas. Cabo eléctrico, 12 cervejas, 2l coca-cola, máquina fotográfica, biscoitos, toalha, copos, etc, etc, foram engolidos pelos alforges sem sequer ameaçar enchê-los. UAU!
Afonso a bordo e siga para o local.
Ainda não tinha referido mas esta bicicleta faz a Gocycle parecer uma bicicleta banal. Não há quem não repare, pare de falar e muitos fazem comentários espontâneos e audíveis...

Não me vou alongar muito, para já... mas passar uma tarde numa rua com mais de 50 pessoas interessantes, dos 6 meses aos 82 anos, com piquenique, mantas num pequeno relvado, música, etc e tudo o que isto significa em termos de utilização e vivência no espaço público... Já valeu a pena! Foi espectacular!!
Obrigado a todos os que participaram. Em breve haverá continuidade, pois o projecto ainda está a começar!




Mais tarde, ao regressar a casa, tempo ainda para uma sessão de pedaladas com a criançada. Como é fácil regressar à infância, em cima de uma bicicleta. Na praceta e à volta das casas, passei um bom bocado com os meus filhos e três filhos de uns vizinhos. A Xtracycle foi o centro das atenções, tipo carrocel onde todos queriam andar. À vez e aos pares (até trios!) lá fui levando a canalha, pedalando sempre com os restantes, pois havia mais bicicletas. Os que não tinham bicicleta correram! Eram seis crianças, dos 4 aos 39 anos!

Cheguei a levar a carregar cerca de 80kg de crianças de uma só vez.... ehehe.





[a turma]

Domingo normal.
Começa a ser uma rotina normal, mas nem por isso banal. Passar a tarde no Parque das Conchas com piquenique. Transporte: Bicicletas, claro.
A Joana vai ganhando experiência e cada vez pedala melhor pelas ruas.

Mais uma vez a Xtracycle provou ser demasiado diferente e por onde passava fazia virar cabeças...


Ao fim da tarde, ainda houve oportunidade para passar um bocadinho bem passado na horta comunitária de Telheiras e contribuir, regando, plantando girassóis e tratando das pessoas (permacultura!), pois acabámos por fazer companhia ao Filipe e à Helena que lá estavam.


Sem dúvida, foi um fim de semana em cheio e sem sair da freguesia!

10 maio 2011

Rodas de Mudança


[Desenho de Gonçalo Baptista]

Há muito que tinha uma ideia que consistia em fazer uma demonstração de que andar de bicicleta na cidade de Lisboa não era uma coisa difícil e que não era preciso ser maluco ou super-herói para o fazer.

Inicialmente pensei numa série de entrevistas a ciclistas urbanos, mas depressa conclui que era complicado em termos de operacionalização. Nessa altura cheguei a este nome.

Mais recentemente, unindo esforços com uma vizinha (com a Iniciativa de Transição em Telheiras conheci imensos vizinhos/amigos), chegámos a um formato diferente, semelhante a muitos outros que há pelo mundo fora.
Assim, debaixo da chancela da MUBi - Associação pela Mobilidade em Bicicleta, da qual sou sócio-activo, apresento esta iniciativa e convido, a quem se enquadrar no espírito da mesma, a participarem nela.

Fica o convite:


"Rodas de mudança" é uma iniciativa de imagem em prol da utilização da bicicleta como meio de transporte, desenvolvida pela MUBi, coordenada por César Marques e Joana Janeiro.
Através da fotografia/retrato de ciclistas urbanos nas suas bicicletas, procurando captar a imagem "normal" e individual de cada um no seu dia-a-dia feito de bicicleta, pretende-se divulgar esta cultura passando a mensagem que não é preciso ser um super-herói para usar a bicicleta como meio de transporte.
Pretende-se, também, realçar a individualidade de cada um e mostrar a diversidade/estilo das pessoas que já adoptaram este meio de transporte, através das bicicletas que usam e seus acessórios (alforges, cestos, etc), carga que normalmente transportam, roupa que geralmente vestem, etc.
No próximo dia 14 de Maio (Sábado), pelas 15h será a sessão de fotos.
Terá lugar em Telheiras, junto à Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro.
As imagens serão divulgadas num site e provavelmente noutro meios, consoante as parcerias e patrocínios que se venham a desenvolver posteriormente, e cada "modelo" assinará um termo de autorização para esses efeitos.
Para tornar o convívio (ainda) mais agradável, vamos ter comes-e-bebes, em modo picnic, ou seja, cada um é convidado a levar alguma coisa para posterior partilha. Não é preciso levar muito, basta a quantidade equivalente ao que se come/bebe. ;)
Este convite pode (e deve) ser estendido a familiares e amigos que se enquadrem no espírito da iniciativa.
Para facilitar a organização do evento, pedimos o favor de confirmarem a vossa presença, indicando o n.º de pessoas, no caso não irem sós.
Resumindo:
Apareçam com a vossa bicicleta, filhos!, roupas, acessórios e carga do vosso dia-a-dia a pedal para as fotografias serem o mais realistas possíveis.

Obrigatório, só o bom humor.
César e Joana
Rodas de Mudança - MUBi

05 maio 2011

Um excelente artigo sobre mobilidade sustentável (Mário Alves)

Mobilidade sustentável
Com o compromisso generoso e esclarecido de muitos
(Mário Alves, especialista em Mobilidade)

Tal como o Marco Paulo, temos dois amores. O amor à Cidade e o amor ao Carro. Como muitos amantes preferíamos não ter que escolher. O primeiro é profundo e secular. O segundo é uma paixoneta com poucas décadas. Mas da experiência adquirida nos últimos anos, sabemos que ao desenharmos, requalificarmos ou construirmos cidade temos que decidir – ou desejamos e sonhamos uma cidade para as pessoas ou colocamos as nossas prioridades na fluidez das máquinas. Na maior parte das situações esta escolha não significará interditar o acesso e circulação a veículos motorizados, mas sim reduzir substancialmente a sua presença e velocidade nas zonas urbanas mais frágeis.

Teremos que perceber que as cidades surgiram para facilitar o encontro entre pessoas. Esta forma de fortalecer as redes entre indivíduos, permitiu o consolidar das preocupações cívicas – a civitas é a origem da política e fundamental para que as pessoas debatam e decidam sobre causas comuns. Por outro lado, as cidades sempre foram fundamentais para a prosperidade e comunhão de ideias. Mais será assim, num mundo onde a produção de riqueza é o resultado do encontro criativo entre pessoas – em vez de fábricas precisaremos de esplanadas, passeios generosos, jardins bonitos.

O aumento da velocidade permitida pela motorização levou à desagregação das cidades e consequente enfraquecimento das ligações entre as pessoas. Hoje, quando encontramos amigos (porque será que já não os vemos há tanto tempo?) reparamos que muitos já não vivem na Rua Forno do Tijolo ou na Praça de Londres ou na Rua da Indústria. Trocamos moradas com ruas sem nome “a sul do IC32”, ou “junto ao nó de Queluz”. Durante os anos 80 e 90 do século passado, o preço da gasolina baixou em preços reais. Foram durante esses anos que fomos comprando casas cada vez maiores fora das cidades. No fundo trocamos metros quadrados por combustível e por mais horas dentro do carro.
Foi também nessas décadas que recebemos muitos fundos estruturais da Europa que gastamos em auto-estradas, viadutos e pontes. Íamos ao mesmo tempo desmantelando as poucas linhas de caminho de ferro que tínhamos. Depois de atingir cerca de 10 dólares por barril em 1999, o petróleo foi aumentando de preço e substituímos o nosso carro por outro, a gasóleo. Mas nos últimos anos a situação complicou-se. Sabemos também que se complicará ainda mais no futuro. A própria Agência Internacional de Energia já anunciou que, segundo os seus cálculos, os recursos petrolíferos atingirão o seu pico antes de 2020.

Nestas últimas décadas apostamos, sem muito pensar, num modelo de território e em estilos de vida que só agora começamos a perceber que tiveram consequências terríveis sobre a vida das pessoas e sobre o meio ambiente. Sabemos também, se pensarmos um pouco mais, que poderão ter consequências trágicas quando o custo da energia continuar a aumentar – muitas famílias poderão ter dificuldades em se deslocar de automóvel e chegar aos seus trabalhos ou às suas escolas.

Muitos dos nossos subúrbios nunca foram testados para a velhice. Numa Europa, cada vez mais idosa, ainda não sabemos bem como é que uma população idosa poderá viver em ambientes onde o supermercado mais próximo está a 20 minutos a pé, depois de atravessar auto-estradas, vias-rápidas sem percursos claros e seguros a pé. Como funcionarão as redes sociais quando os filhos e os netos começarem a ter dificuldades financeiras para se deslocar, num mundo em que o preço da energia pode atingir valores muito mais altos que os actuais?

Talvez seja altura de pensar que a bebedeira de petróleo barato foi um comportamento pouco maduro de uma adolescência desperdiçada e repensarmos o nosso regresso à cidade. Desejar poder levar os nossos filhos pela mão à escola, comprar o pão pelo caminho, cumprimentar os vizinhos, e no regresso parar na retrosaria para conversar sobre o projecto imobiliário que projectam para o nosso bairro. Quando vivemos numa cidade compacta, onde a maior parte das nossas actividades estão a poucos minutos a pé ou de bicicleta, a vida torna-se mais simples, fácil e prazenteira. Para as crianças poderem visitar os amigos não é necessário horas de negociação com o pai ou a mãe – “chauffeurs” que levam as crianças de garagem em garagem, quando estas deviam estar a observar com atenção o mundo que as rodeia à velocidade de quem brinca.

Mas teremos também que repensar os nossos subúrbios. Densificar as interfaces de transporte, melhorar o desenho urbano e espaço público para que seja mais fácil e seguro o uso de modos mais sustentáveis. Contrariar o planeamento por zonamentos mono-funcionais, relaxando regulamentos de forma a diversificar preexistências. Parar de construir campus universitários ou grandes unidades hospitalares entre auto-estradas e vias rápidas, onde é difícil o acesso em Transporte Público e as deslocações a pé.
Para alterarmos os estados das coisas temos que ter uma visão partilhada. Um sonho optimista mas realista de um futuro possível e mais feliz. Muitas das medidas a tomar implicarão inverter estratégias – serão temporariamente dolorosas e polémicas. É por isso importante nunca perder a visão. Para por em pratica uma visão partilhada, temos que comunicar e conversar mais sobre o futuro. Perceber que a mobilidade é uma consequência de estilos de vida que nos impõem ou que escolhemos. Teremos que assumir também que as nossas opções de vida ou modo de transporte têm consequências sobre os todos.

Felizmente já existem exemplos de muitas cidades que conseguiram se repovoar e transformar, de uma forma voluntarista e planeada, a forma das pessoas se deslocarem. Sabemos que uma cidade compacta e densa é mais humana e os seus habitantes gastam menos energia. Por isso, também, é importante requalificar edifícios que teimam permanecer vazios, com um pacote de medidas que puxem todas para a mesma direcção.

Construir mais e mais infra-estruturas viárias para resolver o problema do tráfego e da segurança rodoviária é como tentar apagar o fogo com gasolina. É necessário investir em transportes públicos e devolver os centros urbanos aos peões. Temos que tratar do espaço público das ruas, sem ser necessário obras grandiosas em espaços monumentais. Temos que investir nos transportes públicos de proximidade e leva-los, com coragem e por vezes em sítio próprio, para os centros urbanos. Os peões são a argamassa de qualquer sistema de Transporte Público eficiente. Para que funcione bem, devemos ser generosos na dimensão dos passeios para que possam ter árvores, bancos e espaços para conversar.

Por vezes será necessário reduzir o estacionamento – dificilmente podemos lamentar-nos que há demasiado tráfego e pouco estacionamento na mesma cidade. Como medida para reduzir as cargas energéticas e ambientais, consequência do uso excessivo do automóvel, várias cidades europeias têm vindo a reduzir a oferta de estacionamento há várias décadas. Teremos por isso que rever os planos director municipais porque não faz sentido, por exemplo, aprovar edifícios em centros urbanos, junto a transportes públicos, com a obrigação de albergar centenas de lugares de estacionamento para comércio e serviços. Será necessário estabelecer índices máximos de estacionamento em zonas servidas por transportes públicos e não mínimos como é habitual nos regulamentos em Portugal.

Nesta diversidade de soluções alternativas ao automóvel, a bicicleta tem o seu lugar. Para alguns trajectos com menos de 8 km, ou superiores se usada em combinação com os transportes públicos, a bicicleta terá que ser uma das apostas ao serviço da acessibilidade de proximidade e da "cidade dos bairros". Encorajar e integrar hoje a bicicleta no sistema de transportes, é obrigatoriamente falar do território em que ela se deve movimentar: ordenado, calmo, seguro e requalificado, acessível aos peões e também aos ciclistas. É necessariamente conceber ou redesenhar ruas como espaços onde convivemos e não simplesmente como corredores para circular. Tal implica vontade, meios financeiros, tenacidade e sobretudo um projecto de território, para que se possa conter e ordenar a urbanização difusa e de baixa-densidade, reabilitar os centros históricos, restaurar os espaços públicos, restabelecer corredores correntemente retalhados por auto-estradas, viadutos, avenidas de tráfego intenso, estacionamento desordenado. Sob pena de fracassarem, as politicas de incentivo à utilização da bicicleta não podem surgir isoladamente do sistema de tráfego e basear-se, por exemplo, no traçado de ciclovias. Deverão sim, ajudar a ordenar o ambiente rodoviário de forma a encorajar a partilha do espaço e o respeito dos automobilistas pela bicicleta como modo de transporte e fazer parte de um pacote integrado de medidas que promovam o ordenamento do território, a requalificação urbana e a mobilidade sustentável.

Algumas das soluções terão que ter uma dimensão metropolitana. Os progressos conseguidos por Madrid na melhoria do sistema de transportes foram o resultado da criação da autarquia metropolitana. O ordenamento do território disperso das periferias precisará de parques de estacionamento dissuasores servidos por transportes públicos rápidos e eficientes. Para pagar o sistema e cuidar da sua equidade, será necessário uma profunda revisão da fiscalidade sobre os transportes para que cada modo pague um valor mais próximo do que de facto custa à sociedade. Por mais que nos custe, não podemos continuar a ignorar quem são os utentes do modo de transporte que causa os congestionamentos, a poluição atmosférica, o ruído, os acidentes rodoviários.

Mas mais importante ainda, teremos que perceber que uma sociedade próspera e feliz exige o compromisso generoso e esclarecido de muitos.

[Engenheiro Civil pelo Instituto Superior Técnico, especialista em transportes e mobilidade com o grau de mestre pelo Imperial College London]

21 abril 2011

A cicloficina e um final de dia bem passado!

Num dia chuvoso como o de ontem, a maioria das pessoas consideraria-o com um dia impossível para utilizar a bicicleta como meio de transporte. Este post prova o contrário! :)

Ontem era dia de cicloficina do Regueirão dos Anjos, que se realiza todas as quartas-feiras.
É um serviço de assistência técnica simples prestado à população ciclista, e funciona apoiada no tempo, dedicação e mais valias dos voluntários que a fazem acontecer.

Há cerca de 2 anos, circulava de bicicleta com um amigo ao lado. Esse amigo decidiu fazer um cavalinho mas o que fez foi provocar uma queda dupla e as nossas bicicletas ficaram bastante danificadas, além de ter rompido os calções e ter estragado um telemóvel. Andar de bicicleta tem destas coisas, sobretudo porque nos transporta para a infância com imensa facilidade.

Porquê contar isto agora?
Porque a bicicleta que levava ficou danificada,com as rodas pedaleiras / cremalheiras toda empenadas, apenas remediada com umas marteladas, que apesar de permitirem o seu uso parcial (sem uso de mudanças entre rodas pedaleiras), não as deixaram em bom estado para uma recuperação total.
Há muito prevista, a visita desta bicicleta à cicloficina só aconteceu ontem, sobretudo porque hoje vai seguir viagem para o Algarve onde vai ficar como bicla de Verão, já que em Lisboa há muito não era usada, sobretudo devido a ser uma bicla de BTT, pouco adaptada para o uso urbano e ao facto de haver muita concorrência lá em casa, ou seja muitas bicicletas e mais urbanas! :D

Bom, dito isto, o relato...

Depois de chegar a casa, ainda cedo, combinei com a minha mulher encontrarmo-nos algures no caminho, já que ela estava de bicicleta no seu trabalho e não valia a pena passar por casa.
A bicicleta dela também precisava de afinações de mudanças e travões, algo que a revisão na loja onde foi comprada pela anterior dona apenas conseguiu desafiná-los na revisão gratuita - talvez seja esse o objectivo da revisão gratuita. Desafinar para lá voltarmos, em modo "a pagar"...

Já juntos, lá seguimos para o Regueirão do Anjos e ao passar no Campo Pequeno recordei com alegria a minha primeira viagem urbana de bicicleta, precisamente com aquela bicicleta, há pouco mais de dois anos... dois anos mas um longo percurso!

Ao chegar à Cicloficina, encontrámos os voluntários do costume, caras já conhecidas de outras cicloficinas. Obrigado a todos por este magnífico trabalho em prol da promoção/divulgação da bicicleta.
Um pouco de conversa (em inglês) e algum trabalho depois, a bicicleta da minha mulher estava afinadíssima! O Nate, americano em Portugal, deu conta do recado sem qualquer problema! Thanks Nate!
Logo após, veio o caso complicado, o da cremalheira empenada, e após umas tentativa de recuperação, já recorrendo a um martelo, apareceu uma caixa cheia de material onde como por milagre existia uma que se encaixou na perfeição na minha bicicleta! Nem foi preciso afinar mudanças! Perfect-fit! :)

Entretanto, já não havia ali jantar e pedalámos até à Duque de Loulé onde jantámos.
Já meio atrasado para um encontro marcado, ainda combinei com o António passar no Campo Grande, onde estava a jogar BikePolo, onde chegámos já com algumas pingas tímidas a cair.
Dali seguimos juntos para Telheiras, onde nos aguardavam mais três ciclistas, embora um deles estivesse a pé.
Depois de uma boa conversa sobre um projecto novo e de uma boa carga de água que entretanto caiu e lavou as bicicletas, já perto da meia-noite lá seguimos, descendo a rua, despedidas em movimento e depois, cada um a pedalar para sua casa pelas ruas silenciosas do bairro, molhadas, refletindo a luz da iluminação pública... Very nice.

Um final de tarde muito bem passado!

15 abril 2011

Diálogos sobre bicicletas (1)

Ontem, fomos jantar a Belém com um casal que vive em Entre-Campos.
Combinar e não combinar, digo "vamos ter a vossa casa de bicicleta às 20h30 e depois seguimos juntos de carro".
À hora combinada, na casa desses amigos:

Ele: "Vamos, ainda temos que ir buscá-los!"
Ela: "Não temos nada, eles vêm cá ter de bicicleta"
Ele: "Estás a falar a sério? Pensei que aquilo era gozo!"

(Fizeram questão de descer antes da hora para nos ver chegar, tipo ver-para-crer!)

Na garagem onde deixámos as bicicletas, já depois do jantar, e depois de cada um experimentar as nossas bicicletas... :

Eles: "Então, agora como vão daqui para casa?"
Nós: "Vamos pelo Campo Grande, utilizando a ciclovia..."
Eles: "A esta hora [23:15]? Isso é muito perigoso! Não têm medo? E a escuridão? E têm luzes?"

Algures no meio destes diálogos, a minha amiga solta um "Eu tenho é pena de não ter esta desenvoltura para andar de bicicleta pela cidade" -> um bocado da boca para fora, mas sentido! :)

01 abril 2011

Quer pedalar e tem "receios"? Bike Buddy, da MUBi é a solução!

Bike Buddy, um projecto MUBi: http://bikebuddy.mubi.pt

A MUBi – Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta (http://mubi.pt) – lança nesta sexta-feira a iniciativa “Bike Buddy” (BB) para a cidade de Lisboa.

O projecto consiste num serviço de apoio contínuo, gratuito e voluntário às deslocações urbanas em bicicleta de novos utilizadores, com vista a promover e facilitar a adopção deste meio de transporte. Os requisitos mínimos para solicitar este serviço são ter uma bicicleta em condições aceitáveis e saber conduzi-la com destreza. O contacto deverá ser feito através de um pequeno inquérito na página oficial do projecto BB (http://bikebuddy.mubi.pt), em que o interessado poderá, detalhando o seu perfil de utilizador, requerer o BB que mais lhe convém.

O apoio encerra dois aspectos, baseados na experiência de utilização de bicicleta em meio urbano pelos vários membros da MUBi: o primeiro prende-se com recomendações e dicas concretas acerca de rotas, equipamento, material, segurança, estratégias de condução defensiva e legislação, com vista a tornar a experiência de deslocação na cidade em bicicleta o mais confortável e segura possível; o segundo aspecto do apoio, cuja duração e frequência deverá ser definida por ambas as partes, implica um acompanhamento presencial durante um percurso recorrente do novo utilizador, na acepção de que a companhia de alguém mais experiente transmite uma ajuda indelével a quem pretende afirmar-se como um pleno utilizador de bicicleta em meio urbano.

O objectivo do projecto BB visa a longo prazo aumentar a frequência de utilizadores de bicicleta na cidade de Lisboa e noutras cidades portuguesas, combatendo o mito que reitera ou a sua impossibilidade ou os elevados riscos para a segurança de cada utilizador; acreditamos na MUBi que, apesar da ausência de condições ideais para o uso da bicicleta na cidade de Lisboa, importa promover este meio de transporte através de um apoio experiencial que desconstrua tais popularizações do uso da bicicleta.