29 outubro 2010

Transição em Telheiras

Telheiras é um bairro diferente. Já tinha percebido isso.
Sempre me senti bem vivendo em Telheiras. Sinto que estou integrado num bairro e que faço parte de uma comunidade.
A ART - Associação de Residentes de Telheiras, tem sangue novo e um dos projectos que está a arrancar nesta associação é a Iniciativa de Transição em Telheiras.

Na quarta feira-passada realizou-se o primeiro encontro, feito para palpar terreno e sentir se haveria quórum no bairro para tal projecto. A resposta foi muito positiva muitas dezenas de pessoas marcaram presença.

Feitas as apresentações, houve a projecção de um filme que focava um dos problemas globais actual, o pico do petróleo e o impacto na estilo de vida actual.
O filme (muito bom!), "THE END OF SUBURBIA" é centrado no modelo americano, mas aplica-se com muita facilidade noutras regiões, nomeadamente na Europa, dado que cada vez mais imitamos o "american way of living"...

Depois do filme houve um debate sobre o tema e não só. Falou-se do movimento de transição, de permacultura, do fim do petróleo, da dependência actual do petróleo e afins.
Vi muitas caras conhecidas, vizinhos ou nem por isso. Vi e fiquei a conhecer mais um pouco desta comunidade. Gostei de ver uma comunidade preocupada com estes temas e senti que havia ali vontade de fazer algo mais do que se faz actualmente.

No fim ficou a promessa de novidades em breve, a recepção de sugestões para temas a debater. Um dos temas a incluir será, claro, a bicicleta!

Chegámos a um ponto em que reciclar não é suficiente. Há que reduzir drasticamente a pegada ecológica!!

Já estava semi-familiarizado com a Transição e Permacultura(*), mas gostei de sentir ao vivo a coesão social em volta do tema. Se vai dar frutos ou não, veremos...

No fundo, no fundo, já estou em modo de transição há uns anos.

(*)Uma definição para Permacultura:
É um método holístico para planear, actualizar e manter sistemas de escala humana (jardins, vilas, aldeias e comunidades) ambientalmente sustentáveis, socialmente justos e financeiramente viáveis.

Ficam mais alguns sites e blogs sobre o assunto:
poscarbono.blogspot.com
Pico do Petróleo
Transição e Permacultura Portugal

28 outubro 2010

Casa nova - Plano C

Mudei de poiso. Trouxe comigo tudo o que tinha acumulado. Mudei-me mas não vou deixar caixotes por abrir, nem vou mudar de decoração.

Continuo o mesmo, apenas precisei de sair de dentro de um Sportblog, que já não transmitia tudo aquilo que o blog representava. O desporto foi o princípio, agora é apenas parte de um "plano" mais abrangente.

Bem vindos de novo ao meu blog, o PLANO C.

27 outubro 2010

Randonneurs Portugal

Grande notícia para a bicicultura portuguesa.
Portugal já tem Randonneurs, representado por Randonneurs Portugal.


Vale a pena visitar o site oficial: www.randonneursportugal.org

O que é o Randonneurs Portugal?
É uma associação que tem como missão a implementação em Portugal dos Brevets Randonneurs Mondiaux (BRM), eventos de ciclismo de longa distância não competitiva.

Basicamente tratam-se de eventos que são obrigatórios para quem pretender participar no "Brevet de todos os brevets" o mítico Paris-Brest-Paris, evento que se realiza de 4 em 4 anos e que terá a a próxima edição já em 2011.

MAS, este eventos também são para quem queira simplesmente desafiar-se a si próprio ou fazer estes "passeios" pois normalmente têm um cariz turístico associado. As regras são muito simples pois basta fazer uma média mínima start-to-finish de 15km/h (e máxima de 30km/h), passar nos pontos de controlo obrigatórios e ter autonomia total entre eles.
Cumprindo estas simples regras e o código da estrada, o resto é com cada um. Se gosta de pedalar depressa e parar para uma almoçarada, uma soneca, etc, é à vontade.
A distância mais curta é de 200km a percorrer, no máximo, em 13h30m.

A calendário para 2011 já está definido e abrange todo o país, algo notável para primeiro ano de actividade.


Em Portugal esta modalidade está a arrancar, mas quem sabe... podem aparecer praticantes deste tipo de ciclismo que até aqui andaram por aí a pedalar "sozinhos" e claro, novos interessados em experimentar, como é o meu caso.

O simples facto de Portugal aparecer no mapa desta grande organização global é mais um motivo de orgulho para mim, pelo menos.

Como jovem associação que é, peço a colaboração de todos na divulgação desta modalidade que é não competitiva e que permite a cada participante alargar os horizontes em vários aspectos, sempre pedalando.

Parabéns aos organizadores, um pequeno grupo de entusiastas, liderado pelo meu colega e amigo, Pedro Alves (de quem já falei por diversas vezes neste blog). Ok... confesso que sou uma pequena parte deste grupo :).

Um nota importante: Esta associação não tem qualquer fim lucrativo e a valor das inscrições serão baixos e existirão apenas para os pequenos custos da organização.

25 outubro 2010

Bicicleta - Mitos e pequenos prazeres dos detractores.

Sempre que se fala de um novo conceito, uma nova tendência, há sempre aqueles que vão levantar problemas, argumentando contra, procurando defeitos, etc. São os novos velhos do Restelo, no fundo.

A bicicleta como meio de transporte tem sempre montes de problemas logo à partida, sobretudo para quem não se imagina largar o automóvel.
É incrível como passamos N vezes pelas mesmas conversas....
"E a chuva? :) Quando começar a chover quero ver como é...."
"E as colinas de Lisboa??"
"E a transpiração? Eu não posso chegar ao trabalho todo transpirado/a"
"E os filhos? Como levo os meus filhos à escola?"
Basicamente quase tudo isto se encaixa numa frase simples "Quero lá saber dessa merda de transporte. Tenho um sofá com volante e não vou abdicar dele!"

É claro que há aqueles que vivem a 50km do trabalho e têm os filhos algures no meio, mas para estes também digo algo: "São opções!!!"
Querem ficar perto da praia, ou perto da família, ou perto não sei do quê... tudo bem, mas não se queixem e não me venham pedir mais impostos para não pagarem portagens etc...
Quanto ao custo das casas nos centros urbanos... sim, são mais caras e mais pequenas, mas é tudo uma questão de opções, na mesma, pois contas feitas, muitos suburbanos gastam quase tanto ou até mais na prestação do carro do que na prestação da casa. Opções, opções, opções.
Isto não vale para todos, é certo, mas vale para muita gente!

Voltando aos mitos e aos velhos do Restelo, recentemente aconteceu-me outra engraçada. Toda a gente que sabe que também uso a bicicleta para ir trabalhar e me vê agora de mota, diz logo: Então substituíste a bicicleta? (sempre com um sorriso cínico na cara). Respondo logo, "Não, substituí o carro!".

Como tenho a Gocycle (a do motor auxiliar eléctrico) parada à espera de uma peça, este mês ainda não fui trabalhar de bicicleta, de facto, mas desde que tenho a mota, utilizei o carro ZERO vezes para ir trabalhar!
Por Lisboa, tenho feito as minha deslocações de bicicleta e ainda não alterei uma vírgula ao comportamento que tinha antes de ter a mota. O que fazia de bicicleta continuo a fazer!!!

As bicicleta com motor eléctrico são um estigma, até mesmo dentro da comunidade de ciclistas. Pensa-se sempre na "batota". Normalmente quem experimenta fica fã!!

Já os outros, os tais do Restelo, quando alguém me diz "... e não chegas todo transpirado??" e eu digo "Não, tenho uma bicicleta com motor eléctrico", em vez de dizerem, "Ah, boa, assim faz-se!" e verem o lado bom, não! reagem logo com "Isso é batota" e pronto a conversa perde o lado sério e ficam com a deles. A bicicleta não serve para nada além de passear ou fazer desporto!

Claro que a epopeia dos descobrimentos portugueses teve sucesso apesar dos velhos do Restelo. Já a epopeia da bicicleta, está a aparecer como um modo de transporte em grande ascenção em todo o mundo. Cá não será diferente...

No Porto, há um Mythbuster a trabalhar e a provar que é possível. Último mito quebrado, não é possível optar pela bicicleta quando se tem que levar crianças è escola.

Andar a pé é bom e aconselha-se!

Andar a pé é uma das "actividades" que mais defendo.

Falo muito de bicicletas, mas a bicicleta não é a chave da mobilidade mas sim um conjunto integrado de medidas onde a principal é a redução de viagens de automóvel particular no dia a dia.

Para mim o modelo de mobilidade a implementar deve ter como peça central a pessoa, sempre a pessoa.
Não o carro nem a bicicleta, mas sim a pessoa. Os Transportes Públicos, a mobilidade pedonal, a bicicleta também, claro, e até os automóveis, mas nunca com o focus que têm hoje!

Para não se chegar ao ponto de o andar a pé desaparecer e passar a ser uma modalidade olímpica daqui a uns anos, é preciso incorporar esta actividade no nosso dia a dia.

Como sempre gostei de falar e escrever (umas coisitas neste blog) sobre este tema, fui convidado a falar como pai para pais numa sessão do excelente projecto A pé para a escola, projecto coordenado pelo Mário Alves e companhia com apoio da Fundação Calouste Gulbenkian.


Já tinha falado do tema numa escola mas com criancinhas da escola básica da minha filha. A mensagem foi diferente mas deu para perceber que ir de carro para a escola é das formas menos apreciadas pelos míudos para este tipo de viagens. So they said!

Foi interessantíssimo ver a apresentação em diapositivos, cheios de resultados de estudos (preocupantes, diga-se!) e depois relatar a minha própria experiência desde do "antes" de andar a pé até ao presente dia e constatar que tudo batia certo.
Penso que o meu contributo foi bom para o projecto e o humanizou mais ainda, tornando mais real uma apresentação muito boa, mas necessariamente teórica, embora preveja passar à prática numa fase seguinte.
Espero ter galvanizado ainda mais os (poucos) pais presentes!

Obrigado Mário Alves pela oportunidade.

20 outubro 2010

Já estive mais longe...(de 1988)

Não é segredo que o surf é uma das minhas paixões não correspondidas (por mim!) :)
Por falta de disponibilidade ainda não voltei a este desporto.
Já tenho todo o material mínimo necessário, a antiga prancha (semente 6'2" de 1987), o fato de verão da Decathlon (o tal que fez triatlo!) e, comprados já neste milénio, o leash (corda que agarra a prancha à perna), o axe e uma lycra interior. Recentemente comprei uma prancha melhor para recomeçar, uma prancha em Epoxy de tamanho 6'9" , portanto maior e mais flutuante, mais fácil para maçaricos como eu serei certamente (outra vez!).

No sábado passado, tive um almoço de família na Aroeira e levei o material no carro. Pela tarde fui até à praia, mas as ondas não foram e o cenário foi este:

Bonito, mas não para as minhas intenções. :)

MAS, I'll be back! para a Costa da Caparica, mas mais no centro da vila, onde há spots com ondulação mais certinha... Estou quase, quase lá...

PS: Novamente de Vespa, de regresso ao Surf... A minha vida está a voltar a 1988! Só pode ser bom sinal! :D A juventude que gostaria de preservar, no fundo... Assim o corpo o permita.

12 outubro 2010

One less car - kind of....


Uma referência motorizada neste blog... Sem medos! :)

O Sportblog começou por ser uma coisa muito focada na minha mudança em termos desportivos. Tinha sido um desportista nato, passado por um sedentário nato, gradualmente regressei à actividade desportiva e no inicio do blog estava a começar a intensificar e diversificar essa mesma actividade desportiva.
O regresso à bicicleta ocorre já com o Sportblog em andamento e da bicicleta à mobilidade em geral foi um saltinho.
Já a ecologia e a cidadania, atravessam todo este período e são temas que sempre me interessaram e me moldaram como pessoa.

A ecologia e mobilidade mais o meu passado motard conspiraram e o resultado foi este. Comprei um Vespa (GT200L), para me deslocar para o trabalho, sobretudo, mas não só.
Estava cansado do trânsito e de andar com 1 tonelada e tal para trás e para a frente só para me deslocar para o trabalho, cerca de 36 Km diários.
Assim, poupo o ambiente, poupo tempo e poupo "a carteira" e ainda desfruto do prazer de andar de Vespa, algo que já me era familiar, já que conduzi uma (PX125) entre os 16 e os 20 anos.
E a chuva???, pergunta que qualquer carro-dependente faz quando se fala de bicicletas ou motas ou tudo o que não seja andar dentro de um carro...
Não vou ser extremista mas conto apanhar algumas chuvas, sempre com equipamento adequado, claro.

Como gosto de traçar objectivos, para já estabeleci que a ideia é reduzir 70% das viagens de carro para o trabalho, indo de bicicleta ou de mota.

O próximo passo em termo de política de mobilidade familiar é vender um carro. Será um grande passo, mas como o carro menos necessário não é o meu, não depende directamente de mim... A ver vamos!

04 outubro 2010

Os putos

Quem não se lembra da letra desta canção?
Os putos, que pareciam bandos de pardais à solta. Pareciam, pois agora já não parecem, muito menos são!

Os miúdos de hoje podem ter muitas coisas que nós não tivemos, mas uma coisa que não têm mesmo é a liberdade que nós efectivamente tivemos.

Quando surge aquela conversa com a inevitável pergunta, gostavas de ser criança hoje? blá blá... Penso sempre: Trocar a vida que tive com a vida que teria hoje, mesmo com estes gadjets e brinquedos hi-tech, etc, etc... Nah!

Passávamos a vida na rua a brincar com amigos reais e não virtuais. Éramos chamados pelos pais, pelas janelas a centenas de metros de distância... Enfim, todos já conhecem estas comparações.

E a mobilidade e autonomia das crianças?? Essa hoje é ridiculamente diminuta e crianças-não-tão-crianças são despejadas nas escolas de popó pelos pais, que na maior parte das vezes não pararam para pensar se seria viável a criancinha de 10, 12 14 anos ir para a escola a pé ou de transportes públicos (nem vou meter aqui a bicicleta!)....

Uma cena normal num final de um dia de escola de 2º ciclo (idades dos 10 aos 14 anos):


Reparem no pormenor... Dezenas de carros em dupla fila, a passadeira completamente tapada de carros com pais que querem que os filhos saltem do portão para a assento do automóvel, o caos completo.
Circular nesta rua nesta altura é completamente impossível. A polícia (PSP Escola Segura), claro, assiste a tudo sem fazer nada, pois pagam-lhe apenas para vestir a farda.
Esta foto foi tirada em Junho deste ano, num dia de bom tempo e não num dia de chuva ou temporal....

No meu tempo, ir para a escola era fixe, íamos em grupo, ficavamos na conversa/namorico na estação, jogavamos jogos das cores dos carros, etc, etc. Ah... não tínhamos telemóveis para mandar SMS's às centenas... e por isso tinhamos que nos divertir mesmo! :D

Este post soa a conversa de velho, eu sei, mas custa-me ver estes miúdos sempre engailoados... Casa->garagem->carro->escola->carro->actividades->carro->garagem->casa.

PS: Nem peguei no tema da saúde e da obesidade infantil, que é um flagelo!!!

01 outubro 2010

They love bikes. E nós, o que adoramos?



Resposta: Carros!

PS: Mas é tão difícil (e arriscado) abraçar os passageiros...

O ciclista urbano

São 8h da manhã. Um já-não-tão-jovem homem, dos seus trinta e muitos anos sai de casa, com uma bicicleta de ciclismo ao seu lado. Olha em redor, sente o ar ainda fresco, o sol radiante mas ainda morno a bater-lhe na face e pensa, “que grande dia para pedalar para o trabalho”.

Com desenvoltura monta-se na bicicleta e dá as primeiras pedaladas com vigor, como que se quisesse afirmar, “cheguei e faço parte do trânsito”.

No primeiro entroncamento entra com eficácia e suavidade no trânsito da rua principal da sua zona. O trânsito parou para um peão atravessar a passadeira e a bicicleta surge com o seu charme e passa depois do peão sem lhe causar perigo ou agressividade.

No primeiro semáforo o trânsito adensa-se e o ciclista passa por entre os restantes veículos usando toda a sua elegância de forma e de movimento. Na cabeça da fila, antecipa-se ao verde e ganha a vantagem inicial suficiente para fugir aos fumos da largada dos poluidores automóveis. No cruzamento seguinte entra numa ciclovia. Não é fã deste tipo de solução, mas usa-as que não lhe retiram segurança, conforto e eficácia na sua deslocação.

O ritmo a que segue é moderado. Vai vestido para trabalhar, com excepção da camisola que é desportiva e mais respirável, e terá que chegar ao seu trabalho, a 18km dali, em condições de higiene aceitáveis, embora mesmo assim vá necessitar de um pequeno “tratamento” antes de se apresentar aos demais colegas.

No parque tecnológico em que trabalha vive-se um ambiente empresarial e o carro é quase obrigatório, seja pelo status seja pela necessidade de chegar a um local remoto e mal servido de transportes públicos. Ali a bicicleta é um ser estranho e deve ser vista com algo para deslocar alguns desfavorecidos que nem para o passe têm dinheiro.

Atravessando uma zona central, circulando num corredor BUS, a sua presença é notada pelos transeuntes. O meio de transporte que usa é despido e isso torna-o humano. É uma pessoa que vai ali, à mostra, com emoções, expressões faciais, há contacto visual, há vida naquele meio de transporte.

Passado pouco mais que uma dezena de minutos desde que saiu de casa, o ciclista chega à estação de comboios onde vai apanhar um comboio que o levará para mais perto do seu destino. A boa frequência com que passam comboios deixa-o despreocupado com os horários, tornando a sua viagem livre de constrangimentos temporais.

Desta vez, surpreendentemente chega a tempo de apanhar o comboio anterior ao que tinha previsto, fruto da temperatura mais fresca sentida aquela hora que permitiu pedalar com maior vigor.

Na estação entra semi-desmontado em suave deslize das últimas pedaladas.

Depois de validar o bilhete sobe ao apeadeiro tranquilamente com a bicicleta a seu lado. No apeadeiro tem tempo ainda para folhear um jornal gratuito enquanto aguarda sentado pelo comboio que chega no minuto seguinte.

Uma vez no comboio, na zona habitual, encosta a bicicleta a três bancos corridos e senta-se junto à janela onde recebe novamente o ainda tímido sol da manhã. O sentido em que vai o comboio, do centro para a periferia, é demonstrado pelo vazio de passageiros. Apenas outro passageiro se encontra perto.

É nesta altura que o ciclista faz a sua primeira refeição. A relativa pressa com que sai de casa apenas lhe permite preparar um pequeno-almoço para levar e a vontade de o comer muito cedo também não é muita.

Ali, tranquilo, pode finalmente apreciar a refeição. Distraído enquanto se alimenta, grande parte da viagem de 16 minutos desaparece. Mais uns minutos e chega ao seu destino.

Novamente no chão, sai calmamente do apeadeiro, atrás de todos os peões que fazem o mesmo. 30 metros depois volta a montar e a pedalar, voltando a sentir aquele prazer da simbiose homem-máquina que só a bicicleta permite.

Mais à frente passa numa passagem desnivelada para peões que passa sobre uma das estradas com maior circulação da Europa. A fila no sentido da urbe é interminável. O reflexo do sol funde todo aquele metal numa peça única, como se uma grande serpente metálica e brilhante se estendesse sobre aquela estrada. Paralelamente a toda aquela realidade o ciclista segue o seu caminho, metido consigo próprio mas misturado com tudo o que o rodeia, vivendo cada metro daquela viagem.

Neste troço a viagem endurece. O bairro-dormitório por onde passa foi construído numa verdadeira encosta e do outro lado está o seu destino. Calmamente vence a inclinação, pedalando levemente, recorrendo-se das mudanças mais leves da sua bicicleta. Num declive mais acentuado, apeia-se durante umas dezenas de metros, atalhando caminho e poupando umas gotas de transpiração.

Até chegar ao cume, o ciclista é o mais lento da via. Sem vergonha segue o seu caminho, lento mas determinado, mas sempre motivado pelo que o leva a estar ali, o prazer de andar de bicicleta e o prazer de não andar de carro no meio do trânsito.

Uma vez no cume, avista o seu destino. Vários amontoados de betão e uma via cheia de formigas metálicas correndo na sua direcção. A descer é o mais rápido da via, passando ao lado da fila em direcção à grande rotunda que gere vários fluxos com muitos automóveis e agora também uma bicicleta.

A entrada no parque tecnológico é feita ultrapassando mais uma vez umas dezenas de automóveis, cheias de executivos, bem vestido e cheirosos. Ali ao lado, segue este ciclista, sem dress-code e sem cheiro a perfume mas completamente sem stress e desenlatado.

Uma centenas de metros à frente o cliclista entra na garagem subterrânea do edifício onde trabalha e estaciona a bicicleta num dos dez lugares de bicicletas que conquistou com o seu activismo interno. Hoje é só a sua bicicleta que lá está, mas o futuro poderá trazer mais uma quantas.

Enquanto sobe os três pisos pelo elevador limpa as pouco sociais gotas de transpiração. Usa o elevador só por isso, como sala ascendente de pequenas limpezas. Já no corredor, apenas a sua camisola de Lycra o denuncia como ciclista. O sorriso semi-rasgado poderia ser de outra coisa, mas quem o conhece percebe a razão do mesmo. Ele foi de bicicleta para o trabalho.