
A sociedade "evolui". É o que se diz...
Será esta evolução plena? Não, longe disso.
Recentemente
falei dos ideais de cidade para muitos, onde o que interessa é que a cidade sirva para andar e parar o carro particular em qualquer lado. Não interessa andar a pé com condições, não interessa ter transportes públicos de jeito. Apenas interessa ir a algum lado e deixar o carro no local mais próximo e mais barato possível, o que acaba por se traduzir em "cima do passeio livre (sem outro carro) mais perto". Quem diz passeio, diz passadeira!
Ora, muito relacionado com tudo isto, anda o tema deste post.
Saiu hoje no Publico.pt a notícia de que
Cerca de 60 por cento da população com excesso de peso e um terço dos obesos consideram estar no peso ideal. Aconselho a leitura do artigo que tem factos muito chocantes e alguma informação básica sobre alimentação equilibrada.
Se hoje é assim, imaginem quando as crianças de hoje chegarem a adultos. Cada vez mais o estilo de vida das crianças é menos saudável e são "levados ao colo" desde que nascem até terem 12 anos.
Primeiro andam nos carrinhos de bebé. Logo aqui temos uma grande diferença na sociedade moderna: Anda-se de carrinho de bebé até tarde de mais. Quem nunca viu crianças (não-bebés!) a passear inertes, apáticas, sentadas, curvadas e comprimidas em carrinhos de bebés, empurradas pelos pais por centros comerciais. Sinceramente é uma coisa que me faz imensa impressão. O carrinho de bebé que os meus filhos usaram está novo, de tão pouco uso que teve. Os meus filhos adoram andar a pé!
Outro "carrinho" sempre presente é o carro da família. Este carro leva os miúdos de porta a porta e só se não se puder evitar é que alguém complementa com uma caminhada. Deixa-se o carro mesmo em cima da porta, muitas vezes, literalmente falando. Na minha rua há uma escola do 5º ao 7º (talvez 8º) ano e os carros enchem a rua. Onde couber um carro estão dois estacionados!
Podemos dizer "Ah e tal, os pais vivem longe, etc, etc" Sim, mas todas as escolhas são feitas a pensar "são 5/10 minutos de carro" e nunca "são 10 minutos de comboio, ou 15 a pé" e depois passam a vida sentados....
Quando os miúdos, coitados, são entregues aos seus próprios meios de locomoção sentem-se cansados ao mínimo esforço. Ter que apanhar um auto-quê? Ir a pé até à estação? Andar com aquelas pessoas todas no mesmo espaço. Nah, quero mas é uma mota ou um carro-daqueles-que-não-é-preciso-carta!
Estes mesmos miúdos são aqueles que até têm contacto com o desporto. Há hoje muito melhores condições para a prática desportiva. Oh, se há!
Mas uma coisa é o desporto, outra é mexer sem essa vertente lúdica. Ir a pé para o ginásio? Nah. Isso é para pobre!
No meu caso pessoal, sempre me custou ir de carro para fazer desporto. Só se não puder evitar. Lembro-me de fazer cerca de 4km a correr para ir para as aulas de Boxe, aulas bastante puxadas, diga-se de passagem. No regresso apanhava boleia porque a tinha, senão, provavelmente, voltava a pé para casa.
Hoje, gosto de ir correr para o Estádio Universitário de Lisboa e gosto mais ainda porque vou a correr de casa para lá (2km).
Tudo isto, sem falar das brincadeiras, que são cada vez mais virtuais e menos reais!
Apenas um episódio, recente, com uns vizinhos meus, excelentes pessoas, super bem formadas, muito dedicadas aos filhos, etc, etc.
Fomos passear (a pé) à tarde e levámos, para além dos nossos dois filhos e dois cães, duas filhas desse casal. Quando chegámos as miúdas vinham super entusiasmadas com as actividades que tínhamos feito, uma delas, escalada, brincadeira que já tinha inventado com os meus filhos, numa zona com grandes declive, com calhaus, numa “parede” com um ângulo perfeitamente escalável, aí com os seus 4 ou 5 metros.
Inventei níveis, desafios, dei notas, etc, etc…
“Pai, estivemos a fazer escalada!!!”
O pai vira-se e sai-se com esta: “Escalada?!?!?” (sabia que “apenas” tínhamos ido ali ao parque). “Ahhhh, nas Nintendos!!!” :)
Isto diz tudo sobre o Virtual vs. Real.
Eu não ando sempre a pé ou de Transportes Públicos com os meus filhos. Mas só mesmo quando não é MESMO viável. Prefiro “perder” mais tempo e ir a pé até à escola e voltar para casa e pegar no carro só depois. Prefiro ir ao centro da cidade de Metro (mesmo saindo mais caro, por vezes, em relação ao carro – fica o ensinamento, fica o exercício, fica a “experiência social”). Preferi muitas vezes combater birras de “leva-me ao colo” e não ceder e hoje andar horas a pé sem os meus filhos vacilarem e sobretudo, gostarem também de o fazer.
E vocês, já experimentaram mudar alguma coisa. Há muito mais coisas passíveis de serem mudadas do que se imagina.